Sunday, July 23, 2006

Dá-me as minhas palavras



Dá-me as minhas palavras. Não dou. Dá-me as minhas mãos. Não dou. Dá-me as tuas. Pensar em silêncio entre a lama. Combustão interna de pensamentos. Não te vás embora. Tenho de ir.
Decidir. Verbo inatacável. O verbo que não devia ter passado – e a ter seria sempre imperfeito. Vem. O imperativo unicelular; como se o pensamento se desse em beijos soltos, e assim criasse uma mononocleose intelectual. Olá, tenho uma angina monolítica. Olá, eu sei quando é que vai ser o fim do mundo. Muito prazer.
As vezes sou um elemento externo. Como assim. As vezes sinto intensamente um mundo sem tempo, uma coisa sem propósito causal. Referes-te ao imperativo – a acção inconsequente. A ordem impede o pensamento. Então digo-te em imperativo lato: pensa. E eu penso então que o imperativo impede o pensamento. És circular. Olá, eu sou elíptico.
Ontem vi um morto. Era bonito. Deviam avisar antes. Porquê. Para ir à casa de banho. Sim, as vezes imagino-me dentro de um caixão cheio de mijo. Estou debaixo da terra e não tenho rede. És neurótico. Olá, eu desenho palavras.

Tuesday, June 13, 2006

A palavra e a cerejeira


Sempre que a vista me fica cansada e as mãos me começam a tremer, a escrita fica-me dócil e obediente como se as palavras zumbissem na cabeça a pedir para vir cá para fora; e eu deixo-as ir brincar para a rua como crianças no recreio da escola.

Sempre que a vista me cansa e as olheiras se cerram como duas aranhas aconchegando-se num ninho, o pensamento solta-se e perde-se por entre os dedos como um líquido frágil e morno. Aí desaguo sobre a infância e vou sempre dar à casa onde gastei a minha criancice; desaguo sobre a mata a ferver com caruma seca; desovo na água fresca do poço. Mais que o pensar, as sensações enumeram-se como se fossem a fuligem esvoaçante de um carvão ardente feito de infância irrequieta.

Sempre é uma palavra que se gasta facilmente. E tento evita-la como os cães evitam as salamandras e os bichos da peçonha com aquele ar de quem não quer ser visto a evitar.

Na casa onde gastei a minha infância havia uma cerejeira onde cresciam cerejas que não se podiam comer. Mas a flor da cerejeira era a mais bonita das flores, por isso a cerejeira lá permaneceu, criando flores e não cerejas.

Sempre que deixo de pensar, junto as mãos e sinto o tempo escorrer-se pelas frinchas dos dedos. Não me importo que ele passe assim, nem que o pensamento deixe de o ser, mas custa-me sentir como uma ampulheta de mim mesmo, em que me esvazio aos poucos do tempo que me resta.

Sempre é uma palavra que não consigo perceber de onde apareceu. Mas trago sempre duas ou três comigo, não vá o diabo tecê-las. Quando era criança inventei uma palavra para o sempre do espaço porque disseram-se que essa palavra era infinito e eu não gostei muito dela. Um sempre que fosse a distância da minha casa até à serra e daí até outra serra e dai sem nunca mais acabar como uma viagem sem fim. Satisfazia-me que o nunca do espaço fosse o vazio porque o vazio eu percebia muito bem.

Mas esqueci-me da palavra uma noite quando adormeci e me esqueci de me despedir dos meus amigos imaginários que eram pessoas que não existiam mas que eu fingia que existiam só para conversar com eles sobre coisas importantes.

Eles ficaram chateados e ficaram-me com a palavra. E eu transformei a infância numa espécie de coisa incolor cheia de rasgões nos joelhos e sabores que não voltei a provar. Deixei-a a um canto cheia de palavras inventadas – ou porque não gostava das que existiam ou simplesmente porque não as conseguia dizer.

Ou então porque gostava de inventar palavras. Palavras como cerejeiras que só dão flor.

Wednesday, June 07, 2006

chiffon




Os silêncios pingando pela goela, intermitentes, deslizando pelo esófago, acocorando-se sobre destino. Estou de cócoras, não estás nada. Pausa. Silêncio pontiagudo.

Um dia quando acordar pela manhã e o lume da noite ainda estiver quente; uma manhã enroscada sobre a copa dos jacarandás. No feltro dos lábios desabado. Uma manhã. Estremecer. De que cor queres os lábios. Da cor dos jacarandás.

Tenho lido Rimbeaud; depois apetece-me ficar a olhar ao espelho. E vou pronunciando embriagado a palavra dechifrer, e por vezes digo chiffon, ou Lamartine, o inoportuno autor do verso estanque – j’ais un univers mort dans ma gueule.

E pronuncias lentamente. Pronuncio tudo lentamente. Ouço o piano ensurdecedor. Repito incessantemente a homage a Rameau, o próprio silêncio é luminoso. E o que vês ao espelho.

A própria imagem perde-se e atinjo a fundura do acto de me ver ao espelho como se me pudesse ver verdadeiramente; sem duvidar do acto que o que vejo é o que sou. Je fonce sur le mirroir. Do outro lado estás tu. Estou lá à espera. Sempre receei a amputação.

Um dia quando as mãos súbitas desenroscarem o casquilho dos corpos amanhecidos; e os olhos se soltarem da dormência do amor fermentado. O amor à base de glicose. Sim; o açúcar cozido à pele como um verso dócil na madrugada. Tens desses versos. Não; apenas silêncio. Silêncio contaminando o útero. Então é um para agora e outro para levar.

Wednesday, May 31, 2006

As peles não criam electricidade


As mãos dadas e os segredos guardados na cómoda.
O silêncio pesando como um abraço granítico.

Tenho um universo morto na minha garganta; engulo cores e diapositivos de placentas.
E aglomero léxicos desprevenidos com a saliva espessa.
Algumas coisas gravitam e outras são estáticas.
Algumas rodam e outras estão fixas.

Algumas coisas estão simplesmente feitas para nunca se encontrarem; é a distância que as cria – não o contacto.
Entre elas um murmúrio musical como a catedral engolida.

Mesmo de mãos dadas, as peles não criam electricidade.

Sunday, May 14, 2006

Lisboa embargada


Lisboa embargada, Lisboa adormecida. Já te falei de Lisboa. A Lisboa amanhecida que me fixa estremunhada. É a minha Lisboa. Aquela luz suave que desliza pelos ossos e anuncia as estrelas. É dessa Lisboa que falo. A minha Lisboa.


Quando me disseste aquilo, não pude deixar de pensar no fim de ano. As janelas abertas nos prédios amarelos pálido. Havia aquela necessidade de verdade imensa.
Sabes o que é que fiz a seguir? Sigur Rós como um transplante de córnea. Na voz de JFK disse-te, Nós somos todos Islandeses.

O gelo sobre a pele, e a verdade como gelo. A ordem lógica das coisas. É claro que sim. Vais-me perdoar se discordo que as coisas têm uma ordem, e que essa ordem é lógica.

A única coisa lógica é a Lisboa que se embebeda sobre a calçada estéril. O que é bom. Se a calçada se reproduzisse com a especturação dos Lisboetas, Lisboa seria a maior montanha de calhaus deste planeta. Mas continuaria a ser a minha Lisboa.

Thursday, May 11, 2006

Memory is a good thing if you don't have to deal with the past



Quando ele a viu, ele era exactamente aquilo que ele queria que ela visse; provavelmente nem era exactamente aquilo que queria ser. Mas era aquilo em que achava que ela queria que ele se tornasse. E isso é independente da hipotese se voltarem a encontrar.
Sim; mesmo que ele tivesse a certeza que não voltariam a ver-se, ele tentaria atingir aquela imagem hiper-estabilizada, segura e disponível. Por mais inconsciente que o processo ocorra, a verdade é que quando se anseia um reencontro com alguém, esse reencontro é com mais do que uma pessoa. É com essa pessoa e com a pessoa que era-mos. Uma pessoa ainda não ciente do desejo de possuir uma imagem hiper-estabilizada, segura e disponível; e completamente não ciente do desejo permanente que a outra pessoa – que nos faz desejar ser isso – provoca em nós.

Bem que se pode argumentar com o tempo em que o fomos; uma coisa é certa: ser novo e ter certezas nítidas está apenas ao alcance de quem é novo e não tem esperança nenhuma no que o futuro lhe possa reservar – demasiadas certezas demasiado cedo é um acto de intensa desesperança.

É portanto obvio o que acontece – e ao mesmo tempo ridículo, e por isso mesmo ridículo. Existem tempos em que se vivem momentos únicos e irrepetíveis da vida. Não que não se desconfie que são únicos. Eles são sentidos como tal e é isso que, logo no momento, os tornam únicos. O que não se desconfia é que são irrepetíveis. Principalmente para quem os vive na altura.

Como distingui-los então? Como saber que o foram? Não é difícil. Basta reparar numa absurda tendência (uma espécie de patologia hepática) em encenar as mesmas circunstâncias com pessoas diferentes. As mesmas situações, provavelmente até nos mesmos sítios, de uma forma estranhamente semelhante. Uma óbvia encenação de um reencontro, não com o objecto original, mas com uma réplica que antes não o era – nem se pretendia que o fosse – mas que, por não provocar o burst anterior, o mesmo estado de enchantement, mimetiza-se em tal.

No entanto o processo é inevitável, pois só quem não cede à desesperança demasiado cedo é que interrompe a continuidade dessa circunstância idílica por um futuro totalmente incerto – que é aliás a mesma sede de futuro que leva o encontro original a desenvolver-se de forma tão intensa e completa.

Sunday, April 23, 2006

Taxi




Mesmo que de forma extremamente incompleta podíamos ser felizes... Ela riu-se; um pouco sem querer, mas riu-se e disse-me: de forma incompleta. E deixou um tom de interrogação no ar. Sim, de forma completamente incompleta, mas felizes, a espaços. Aí ela riu-se à séria. E disse: nem de forma completa ou incompleta, isso é impossível. Mas eu gostava do impossível com ela e disse-lhe: podiamos ser impossíveis os dois juntos. Aí ela não se riu; antes mascou o lábio e engoliu um pouco do cigarro que fumava e disse: estás a falar a sério? Mas aquilo não era bem uma interrogação; antes um desafio – tipo, não eras capaz? E eu percebi isso; ao de leve. E disse-lhe: Sem querer dizer o que sinto, quero não dizê-lo contigo. Aí ela riu-se mesmo. Disse o meu nome, o que nunca fazia e disse: Tens dinheiro para o táxi? Peguei-lhe na mão.
E peguei nela toda. Ela passou a mão pela minha boca e disse: O problema é que vamos estar para sempre num táxi, sem nenhum sítio possível para estarmos juntos. E eu pensei, juntos somos duas pessoas diferentes, que só se gostam ao longe. Juntos seríamos iguais a todos os faisões transeuntes na rua de mão dada.
E então disse-lhe: prefiro um táxi para sempre do que uma paragem deslavada. Ela riu-se e fomos embora.
O cheiro da areia molhada completava o silêncio.

Tuesday, April 11, 2006

Os Anos Indecisos



As vezes pensava em ti; o suficiente para entender que mais do que pensar, sentia o que pensava; e o que sentia eram centenas de tardes abafadas e desprotegidas – aquelas tardes em que se sentem os grilos como uma frigideira fervendo azeite e ar ondula espesso sobre o horizonte. Tardes em que o corpo se torna lânguido e a pele se aglomera em languidez excessiva que tenta, mas não pensa – num não pensar muito mais do que se sente, mas que não é sentir porque apesar de tudo, é lembrar.
A memória estava assumidamente por toda a parte, é certo: estava no cheiro da chapa quente do carro, no sal esvanecido nas bocas, no próprio afundar dos pés nos cristais das praias. A memória estava no parapeito dos corpos próximos e os corpos distantes como o esquecimento.

Por vezes não é a memória que fica, mas o cheiro de um tempo indeciso; um tempo antes de haver memória. Esses anos indecisos que foram anos em que os actos surgiam na mesma proporção dos desmanchos. O arrependimento não se aglomerava o suficiente para o ser; em anos indecisos o arrependimento é como cotão que surge do pó dos actos e que se desprende com um único hálito sôfrego – o arrependimento trata sempre mais do que se poderia ter feito (e se deixou de fazer) do que o que não se fez.

Os desmanchos sucessivos em palavras inquietas como nós; as horas perduravam centenas de palavras por dizer, mesmo que na realidade tivessem passado centenas de tardes em que nada tenha ficado por sentir. Depois sobravam os silêncios; mas não importava – um silêncio que indica um fim é bem diferente do silêncio que marca o início. E em anos indecisos nada configura a aparência de um fim; tudo é um elástico interlúdio.

As vezes pensava em ti e tudo me parecia bastante menos elástico. O tempo tem essa capacidade de solidificar a indecisão, até que o acto – por mais indeciso que tenha sido – se torna granito escamoso com saliências a saber ao sal esvanecido nas bocas e aos cristais que o silêncio soldou aos corpos. Mas é um bom silêncio; um silêncio com açúcar. Sim, nada é tão doce quanto a certeza que cada partícula acidental de tempo foi destilada até não conter um milímetro de açúcar. O açúcar amolece-se na boca e pouco tempo após, uma ninhada de álcool abrupto é engolida de um só trago. O olhar revira-se e as mãos tremem; mas sabe bem. Quase que sabe a nós.

O pensar que é como um sentir-se, mesmo que a memória seja virada do avesso e apresente coisas novas como tardes que ainda faltam viver durante toda a vida.

Os sorrisos vertiam-se sobre a chapa do carro abrasiva. Nada é mais reconfortante do que sentir que o tempo está do nosso lado.

Friday, March 31, 2006

BMW



In the next world war
Jackknifed juggernaut, I am born again.
In the neon sign, scrolling up and down
I am born again.

Interstella burst.... I am back to save the universe.

In a deep deep sleep, of the innocent
I am born again.
In a fast german car, I'm amazed that I survived
An airbag saved my life.

Interstella burst.... I am back to save the universe.
Interstella burst.... I am back to save the universe.

(various moaning)


Entrar com calma. E não pensar nisso, não sorrir, nem ao de leve. Ir ter com ela, já. Andava de carro há pouco tempo e ainda possuía alguma desconfiança compenetrada sobre a eficiência daquilo tudo. Imaginava os cilindros penetrados por pistons sinistros vertendo lama preta pela estrada desmaiada. Tinha a certeza que alguma coisa ia correr mal.

In a fast german car, I'm amazed that I survived
An airbag saved my life.

Antes de me deitar tinha a mesma sensação; invadia-me aquela noção de cão morto. Sentia-me uma pipeta com hemoglobina. Uma gaita-de-foles com oxigénio da rede pública.

Interstella burst.... I am back to save the universe. E o carro avançava sem piedade por mosquitos ou átomos de azoto.

Fiz a viagem toda de noite – Fitter, happier, more productive, confortable, not drinking to much, regular exercise at the gym, …, a safer car, sleeping well, no bad dreams. As viagens de noite emudeciam-me o medo de ser comido vivo pelo tempo. E imaginava sempre que iria chegar a um sítio vazio e que tudo estaria vazio quando chegasse e que tudo faria sentido.

Interstella burst.... I am back to save the universe.
Interstella burst.... I am back to save the universe.

O Airbag salvou-me a vida que eu tinha esquecido que tinha. Ficámos bons amigos.

(various moaning)

Tuesday, March 21, 2006

A relação dos terráqueos com a excepção que confirma a regra


A entropia na teoria da informação corresponde à incerteza probabilística associada a uma distribuição de probabilidade. Cada distribuição reflecte um certo grau de incerteza e diferentes graus de incerteza estão associados a diferentes distribuições (embora diferentes distribuições possam reflectir o mesmo grau de incerteza). De um modo geral, quanto mais "espalhada" a distribuição de probabilidade, maior incerteza ela irá reflectir.

Por exemplo, se alguém lançar um dado de seis faces, sem saber se ele é viciado ou não (Nada a ver com coca), a probabilidade mais razoável a ser atribuída a cada resultado possível é 1/6, ou seja, representar a incerteza usando a distribuição uniforme. Esta atitude segue o conhecido princípio da razão insuficiente de Laplace, onde atribuir probabilidades iguais aos eventos possíveis é a maneira mais razoável de alguém reflectir sua ignorância (e sua incerteza) quanto às probabilidades de ocorrência de cada evento.

Por outro lado, provendo-se a informação de que o dado é viciado e que ele dá números maiores, i.e. que a média é por exemplo 3.5 e não 3, então a pessoa naturalmente irá assumir uma distribuição alternativa à uniforme para expressar sua incerteza.

A informação complementar implica uma actualização da função distribuição para discernir o resultado de um evento enquanto variável aleatória – e não elemento determinístico. Ou seja, mais informação tem normalmente a desagradável consequência de obrigar uma alteração na forma de raciocinar; desagradável porque o arquétipo de pensamento anterior é contestado face à defesa pelos seus anteriores utilizadores – ainda não cientes da nova informação.

Estranhamente, é costume entre os terráqueos insistir no arquétipo anterior, apesar de já possuírem a nova informação que o invalida. O que não deixa de criar a não menos desagradável consequência – de forma a continuar a validar o sistema antigo – de criar excepções às regras agora já não aplicáveis porque erradas.

Seguindo o nosso exemplo do dado viciado em canabis, assumir-se-ia agora que a probabilidade continua sempre 1/6, menos na faceta que origina o 4; e eis o paradigma antigo aglomerado com a nova informação que o invalida.

Nada mais contraditório, nada mais terráqueo, nada mais perigoso.

Sunday, March 19, 2006

Guelras



Os corpos abandonados e a cafeteira de cigarros posta ao lume. A luz indagando presenças, a luz rarefeita e as sombras com metástases; a sombra percorrendo-te o corpo como a humidade do mar junto à arrebentação refrescando a pele: a sombra era vaga e meticulosa.


Os corpos postos ao lume e as palavras deixadas ao abandono. As palavras intoxicadas pela luz angulosa, as palavras enforcadas em cada beijo. Os beijos e as sombras chapinhando como amêijoas voadoras em nosso redor. No redor dos corpos em comum.
As palavras requentadas que não vamos trocar; palavras de calafrios e inquietude. As mãos entornadas por todo o lado como um vazio de dedos preenchidos; o suor ressequido, cristalizado como a resina dos pinheiros.
O teu corpo remexendo-se e o olhar entreabrindo-se. A lixívia escorre-me pelas olheiras – olheiras de não dormir por te olhar; olheiras que engoles ao fechar de novo os olhos. O polimento subtil das pestanas periclitando e as pálpebras contraindo-se.

O quarto com os seus pombos silenciosos; no quarto caminham pombos não-voadores aguardando as nossas migalhas. As patas deslizando e as asas ajeitando-se: é tudo o que se ouve.
As migalhas de silêncio, este silêncio mal apagado. Não temos nada para dizer um ao outro. A sombra transparente da escuridão reflui, expele a luz das nossas membranas postiças.

Tenho guelras porque respiro debaixo do amor e tenho sono porque te olho durante toda a noite.


Saturday, March 18, 2006

Leutnant Törless


De dentro da carruagem, baloiçando pelo empedrado burilado, Törless fixava-se sobre a mancha de céu obscuro que o envolvia; nela distinguia desvios concêntricos que perfuravam a imensidão plana; a perspectiva era inconstante, e dada pelo baloiçar da carruagem.
Törless sentia a pelugem macia da nuvem na cara como um borboto de céu exilado e sobre a chama mansa de luz cerrava densamente os olhos.

Era assim de olhos fechados, as têmporas estalando em regozijo pela percepção abstracta do movimento apenas dado pelo calor vagueando pelos lábios e o trote insinuando matéria animal que o outro espaço – aquela imensidão de luz e de céu – se aproximava de Törless, descascando-se de perspectiva e assumindo perante Törless uma natureza bidimensional que o aproximava de um relais de poste situado entre o que os sentidos percepcionavam e o que dele se estratificava entre planos de montanhas e céus a galope por um universo mágico.

Sobre as nuvens obscuras e os seus rebordos iluminados por cometas; Törless mergulhava lá o seu olhar curioso e destemido. Mas era a ilusão do descontrolo que a cegueira em movimento conferia que lhe dilatava a imaginação, ao ponto de diapositivos nítidos do exterior se apoderarem dele.

Por vezes o silêncio aproximava-se porque Törless se ausentava em definitivo do contacto com o exterior, e aí a jugular inchava até o frémito intermitente do batimento cardíaco obstruir toda a imagética transbordante do seu espírito; enquanto apenas um sapateado binário era audível em Törless, os restantes sentidos depositavam-se em espaços inconscientes da sua abstracção e para ele era como se ainda não tivesse nascido.

Mas logo e sempre, o retrocesso uterino era interrompido assim que o dedilhar seco do coração era invadido pelo pizzicato do trote, e a aflição invadia Törless ao tomar a fúria cavalgante do trote acelerado pelo seu próprio coração; aí abria os olhos com esforço, permanecendo um longo período inquieto e na dúvida se adormecera ao de leve ou se o mundo em seu redor se ausentara por breves e escamosos instantes.

Era essa ansiedade inquieta que naquela noite – no intervalo do Tannhauser em Viena – se apoderara dele, assim que Maria se aproximara e lhe dissera alegremente: “Meu caro Törless, o uniforme fica-lhe tão bem. Ah desculpe… Se bem percebi agora é Leutnant Törless, não é?

Törless via Maria bem longe do outro lado da sala e não sentia forças para a replicar diante de si – embora tal estivesse ao seu alcance – e limitava-se apreciar o seu cheiro vago a alfazema e amêndoas.

Monday, March 06, 2006

O click, o momento anterior




Eu e a minha Staedler navegando pelas fiadas das horas, horas seguidas enxugadas com os Brandenburgueses, horas parasitárias desfilando entre os coágulos dos dedos. Era apenas eu e ela, ambos omissos de carne envolta, os dois mastigando cartilagens abrasivas, desenhando mitos ao pé cochinho, apoderando-se da transeunte insanidade adjacente; porque ela existe, está lá. Está lá à espera de ser tomada, ansiosa que lhe arranquem as cuequinhas de cetim escarlate e que lhe perfurem o gargalo cristalino; e eu aguardo-a.

Estou numa esplanada em Veneza comendo um bolo de laranja molhado e sorvendo um chianti fresco; encontro-me desperto, e sinto o céu mais azul, mais azul do que as veias encardidas de azul.
Ela está lá, expectante. Eu vejo-a, como uma dobradiça rangendo, vejo-a de madrugada com a voz doce, as coxas quentes, as mamas siliciosas; e sinto-a como aquele click ainda perceptível antes apertar o gatilho.

O click? O T menos 1, o momento que quantifica o limite até ao qual, qualquer decisão é reversível. O exacto instante do início da última unidade temporal. O click: o estado mental que percepciona o movimento estancado, a estaticidade de cada elemento quedo movendo-se por incrementos, no preciso instante antes de acontecer. O click; o momento anterior. O momento que antecede a irreversibilidade.

O click não é apenas o último momento antes do próximo – é sobretudo o instante mais prolongado de todos. Como a distância milimétrica entre duas bocas prestes a beijarem-se, ou a distância entre a luz das palavras transmitidas e as pupilas iniciando uma dilatação de aceitação.

As palavras: a sentença proclamada e mesmo assim não aceite; palavras ensaiadas vezes sem conta, os gestos descoordenados com elas, a espera, ansiosa espera, que a luminosidade do olhar accione o seu entendimento e o click se materialize. O click: o acto que mistifica o futuro.

Estou numa esplanada em Veneza e tenho um rendez-vous com ela; e ela adorava bolo de laranja molhada. Eu prefiro Brandenburgueses insaciáveis com vinho encorpado que aglutine a percepção; e no click entre estados perceptivos diversos, passar-lhe a mão pelo cabelo esfarrapado, o loiro encardido de esperma lúcido, a gengivite amealhando amilóides beta.

Eu e a minha Staedler concluímos que o click pode não ter reacção inversa porque a passagem do ébrio para o sóbrio não tem click enquanto que a inversa tem; o recíproco pode não existir, o que invalida o princípio de Le Chatelier nos domínios do click e torna impossível provar a sua existência por absurdo.
Por absurdo, não se pode comprovar a existência sísmica do click pelo sua merecida não existência. O que prova que o click prevalece nos instantes imediatos antes de desaparecer.

Em Veneza os bolos de laranja são molhados, o chianti muito fresco, e o ar repleto de docilidade pestilenta; a insanidade transvaza-se por entre as marés poeirentas e eu aguardo o sangue das minhas mãos espremidas.

Friday, March 03, 2006

Variações ao Caeiro em Mim Menor


E aí sente-se; mas sente-se de uma forma que ainda não é sentida;
sente-se antes de o sentir ser seja o que for. O que se sente é um indício – não se ouve o segredo mas ouve-se o segredar.
Nesse sentir do que quase é, avista-se por instantes a fruição do que será esse ser-se sentindo – e não apenas a antecipação desse ser-se;
e é nesse sentir de ser-se antecipado,
um sentir tão próximo do que se será que quase é, que por vezes o coração se fecha e o corpo se encolhe como da dor se abrigassem.

Não que esse ser-se que sente como matéria completa e absoluta de sentir seja razão de dor.
Não o é;
é antes a apreensão da passagem entre o ser em que se é apenas para o ser-se em que se sente – tão abrupta e escarpada como um grito que nada diz mas que tudo ocupa –
que faz antever o que será passar desse ser que sente esse sentir tão absoluto e completo – e não adivinhado –
para o ser-se que nada sente e apenas advinha.
E aí sente-se aquele sentir que mesmo não sendo razão de dor, é razão suficiente para a antecipar.
E aí nada se sente.

Saturday, February 25, 2006

Six concerts avec plusieurs mouvements


Como Calvino faz em “ E se numa noite de Inverno…” uma série de inícios de livros que em conjunto formam um livro que aspiram ao sublime, ofereço “ E se numa tarde de Abril o Sr. Dehn….”

Six concerts avec plusieurs mouvements dediées a Monseigneur Christian Ludwig von Brandenburg. Foi este o título que o Senhor Siegfried Dehn, curador da colecção de música da biblioteca real de Berlim, leu num tom autoritário ao seu assistente que fazia o inventário. O Sr. Dehn, repetiu o título agora num sussurro quase imperceptível e ficou depois em silêncio; tentava entender como o sujeito se acordava ao verbo dedicar: com concerto ou movimento. Seriam por certo os seis concertos o sujeito, mas para o caso a questão pouco importava: ambos eram masculinos o que pressupunha que dediées não possuísse o e extra que o francês exige para o feminino.
Os franceses – bem ao contrário das restantes línguas latinas – não acordam em termos orais os verbos com os seus sujeitos, mas apenas na gramática; i.e. colocam um e para o feminino e um s para o plural, mas lê-se na exacta mesma forma como se não estivessem presentes; dedié (m,s) lê-se como dediée (f,s) que se lê como dediée (f,p) – muito à semelhança dos saxónicos que não possuem sequer estes vestígios latinos na sua língua. Esta gramática borderline dos franceses – incorporando o pragmatismo saxão e a escolástica romana – já seria por si só indigestível e condenada à extinção, não fosse um pequeno pormenor que auxiliou o francês em toda a sua musicalidade: em francês lê-se a vogal inicial de uma palavra com a consoante final da palavra anterior no que é chamado de liaison ou ligação. Six concerts avec plusieurs mouvements dediées a Monseigneur é lido Six concerts s’avec plusieurs mouvements dediées s’a Monseigneur….O que é algo que também está presente subtilmente em português: lê-se seis concertos dedicados s’a – tornando-se o s num z – e não dedicados (pausa) a como os alemães na sua rígida separação de sílabas executam, tornando-a numa língua tão peremptória.
Era esta liaison entre dediées a Monseigneur (ausente na sua língua natal) que o Sr. Dehn ia sussurrando enquanto meditava sobre o estranho e a mais na frase. Foi portanto com um sibilar semelhante a uma abelha no ar que o seu assistente – já impaciente com zunzuns – lhe perguntou com uma pouco frequente autoridade: “ Mas qual o autor desses concertos? Algum francês?”
- Um francês não será por certo meu caro – respondeu-lhe o Sr. Dehn com a voz convicta. – Ou então é um francês que fala tão bem francês como tu… E riu-se paternal para o seu assistente que, ciente da falta de conhecimento que possuía da língua de Voltaire, assentiu envergonhado.
- Não, este e tem de ser definitivamente banido.– Afirmou o Sr. Dehn – quanto ao autor… E então o Sr. Dehn baixou a sua voz até esta se assemelhar apenas a um murmúrio, exclamando quase em silêncio:”Não pode ser!”
Numa letra algo irregular sobre o manuscrito envelhecido o Sr. Dehn leu a seguinte frase: do seu muito humilde e obediente servo, Jean Sebastien Bach.
A razão de tal espanto não advinha apenas de se tratar de Bach o autor da peça, mas por ser o Sr. Dehn um dos mais ilustres conhecedores da obra deste autor genial. E o Sr. Dehn nunca ouvira falar de tais concertos. Virou-se então para o seu fiel assistente e respondeu com a voz emocionada: “ Bach meu caro Klaus, isto é Bach…
Bach já morrera há mais de cem anos quando em 1849 foram encontrados nos arquivos da biblioteca Real de Berlim os seus famosos Seis Concertos dedicados em gramática sinuante ao Marquês de Brandenburg que, de imediato, ficaram conhecidos por Concertos Brandenburgueses. A essa tarde de Abril presto homenagem.

To be Continued

Monday, February 20, 2006

Rêverie



Uma rêverie constante e repleta de matéria dócil; a calda da compota de pêssego que escorre pelo temporizador das granadas de silêncio. Em silêncio escuta as migalhas que transbordam. Não digas nada – escuta o mover intromissivo das mãos salpicando os corpos.

Os nossos corpos que são algas sorvendo sal pela escarpa dos lábios mal secos. Porque não são matéria de lábios nem de rochas fedendo a mar, mas sílabas entre nós – aquele sorrir que nada dizendo preenche o vazio que se inala ao acordar.

Acordar contigo com a voz desfeita, não interceptar os membros entre a penumbra – resta aquele hálito seco da noite desfeita, aquela oxigenação do azul. Nós; será que fomos nós? Um pinhão com geleia no interior ou uma geleia cobrindo uma casca que nada encerra. Matéria fundamental de nós.

Eu não sou mais do que isto; sou apenas o resto do dividendo meio atordoado e poucas perguntas me restam. Por mim teria vivido noutro tempo e teria gasto esse tempo contigo. Entre o amanhecer sussurrado ao ouvido e as pálpebras espezinhando o escuro.

Noutro tempo teria a voz mais séria e as aftas polidas; ouviria Debussy de forma tão desalmada como hoje e mas sem o mesmo temor. Ao ouvir o Clair de Lune, sinto de imediato o uniforme amarrotado e o cheiro da chuva que me estala. Procurava o verbo de estalada, que não é de todo estalar. Mas muitas vezes até o logos me falta. No Debussy nunca senti a falta de verbos.

Por vezes sinto-me só. E apesar dessa solidão ser comigo, o comigo é insuficiente. Precipita-se entre o absinto e línguas com larvas; para mim nada resta a ser não oportunidade de te sentir sobre a areia. O marulhar desconcertado como abelhas ébrias e o fremir da presença como matéria sôfrega e fundamental. Matéria de mãos presas como aranhas esventradas e olhares cerrados como um neutrão.

Ser perecível e supremamente biodegradável; ser matéria de consumo de tempo. E possuir levemente essa consciência. Eu e tu, minha consciência do que ainda não é mas espreita. Eu e tu.

Pergunto-me muitas vezes qual a unidade fundamental de matéria e quando digo pergunto-me, não me refiro a uma busca ininteligível pelo quanta acidental que decorra do embate de quarks embriagados. Refiro-me antes a uma unidade indivisível que decorra da prolongada observação do tempo espreguiçando-se. Uma unidade fundamental de consciência.

Uma coisa divina que aglutine matéria de sonhos e de memórias. Matéria de amor inquebrável. Uma matéria que se assemelhe ao pensamento mais binário e mesmo assim mais intraduzível. Matéria de música que o seja em apenas uma nota; um poema inteiro numa só letra num só som, e que esse som seja também música e um só sentimento.

Quando penso em unidade fundamental de matéria não posso pensar em objectos contidos num espaço tangível – ainda que microscópico. Um espaço tão tangível e microscópico quanto o meu corpo putrescível e oxigenado; e no entanto ausente porque transitório, soberbamente efémero e finito. Uma bolha carbonatada nesta coisa expansível como uma grávida eterna.

Sei que nada em mim é unitário e fundamental. Sei que não sou um aglomerado de migalhas que juntas efectivam matéria porque a matéria perdura e nada em mim perdurará a mais de pó sub-atómico – e como bem se sabe pelo contacto casual que nós humanos possuímos com formigas e com tempo, migalhas não é pó, nem pó são migalhas. As migalhas decorrem do que resta do que houve e o pó deriva do que já não é mais.

Gostava de pensar que a unidade fundamental se encontra algures entre uma cerveja num final de tarde ameno com jazz arremessado de uma bateria vaga e um trompete impetuoso; ou entre o coaxar da chuva e as fagulhas da madeira aloirando-se e os corpos aglomerando-se em poças de amor com um Debussy esmigalhado bem lá atrás. Ou então apenas um beijo entre lágrimas; ou mesmo apenas Bach. O que seja, mas que seja de forma imprudente e descuidada; que o seja de forma apressadamente orgânica e musical; que o seja por sentidos o aperceberem e não por serem partículas inacessíveis ao tempo e à insanidade.

Que seja barro humano feito com saliva e melancolia altiva. Que contenha gordura e orgulho. Que contenha vergonha e vesículas inúteis. Que contenha toda a imperfeição e beleza que de uma jugular rota possa brotar.

A mim pouco me resta para além do Clair de lune. Aquela magia pontual de piano compreensivo. Alguma poesia e algum contentamento por actos repetidos e não pensado. Mas não me chega. Acho que claramente, não me chego a mim. Muito menos a toda esta putrefacta consciência que me cega como uma luz demasiado forte.

Fevereiro, 2006

Tuesday, February 14, 2006

Sem Título

Em redor da sombra encharcada, em teu redor, uma nota solta que desliza. No redor de ti, um cerco descamisado de mãos súbitas, nuvens paraplégicas e arrebentações de mares em Neptuno. Em teu redor, a sombra desaprendendo-se, a trajectória das mãos desenroscando-se, e o ímpeto do cerco deslizando pelos lábios liberais. Permanecer, liberto de sombras sindicalizadas, amor amordaçado numa indústria de murmúrios e sílabas que não duram mais que um beijo.
Mas mesmo não durando a sede mais que um gole de vinho, é a sede que eu quero – não a sua saciedade.

Saturday, December 17, 2005

Veni Creator


Encontrei na surdina das vozes um labirinto indesejável, uma insanidade implantada em ambos os hemisférios, uma fome de fim interminável. Pouco a pouco, senti-me a absorver as vozes que em surdina deflagravam em meu redor; o isolamento era inútil – eu estava contaminado pelo interior, não pelo ar adjacente.

Assim acontece quando se está exposto; e eu percorri o filamento das lâmpadas como um peregrino buscando uma luz mais quente, um repouso mais inteiro. E caminhei longamente pela calçada basáltica – não me dirigia em nenhuma direcção, em nenhum sentido, mas o passo era firme. Gostava de me pensar como um produto escalar apontando para o firmamento, e não um vector afiado como uma lança. Não, os meus dedos estavam gastos pelas carícias intermináveis e as unhas já não me cresciam.

Quando se caminha como peregrino, é natural encontrar outros – a que chamamos irmãos, tal é a ligação estabelecida. Mas nesta caminhada fui encontrando pouca gente.

Nas dunas encontrei um mago que acompanhava o andamento das ondas com as mãos unidas. As mãos ondulavam sobre o ar como se a arrebentação estafasse a terra. Era um maestro Eslavo naufragado numa expedição de muitos navios. Mas era um homem desiludido e não conseguimos comunicar.

Encontrei pouca gente e com poucas partilhei formas verbais idênticas. Com poucas partilhei o meu pão e dividi a minha compota de figos.
Um dia encontrei uma mulher estática na berma. Tinha o cabelo muito claro e fino como uma luz miudinha. Assemelhava-se a uma estátua, ou a uma figura paralisada de Pompeia; tinha as mãos sobre a cabeça e o dorso reclinado. Parecia que se protegia, ou que se escondia. Na realidade ensaiava uma dança ancestral – só que habitava um tempo diferente do meu, impedindo-me de aperceber o seu movimento, impedindo-a de sentir a minha presença. Era um passado que eu lhe podia antecipar, ou impedir. Éramos luzes de frequências diferentes, de galáxias incontactáveis. Éramos de tempos diversos.

De todos os sítios por onde estive, aquele que me acolheu de forma mais genuína foi um local gélido e esconso no Norte. O gelo era azul eléctrico e emanava uma poeira de luz indizível durante a noite. A luz mais bonita que jamais vira. Lá apenas moravam um ancião com a sua neta. A neta era muito doente e nunca a vi abrir a boca. O avô falava numa língua que eu não identificava. Ele passava o dia a tratar dela com intenso carinho. Dava-lhe banho, vestia-a, alimentava-a. Também ficava muitas horas sentado no alpendre assistindo ao fim do azul junto à escarpa de Elsinore – assim chamavam à quebra súbita da montanha até ao planalto. Eu acompanhava-o com pudor, por vezes ensaiava um sorriso. Ele não me respondia. A sua voz era, aliás, um murmúrio rouco que parecia não intercalar as sílabas.

Um dia pelo o final da tarde, ele não apareceu no alpendre. Deixei-me estar ali aninhado, aguardando o romper da lua cheia. A certa altura comecei a ouvir uma voz bem lá no fundo. Uma voz como um cântico de sereias, uma Lorelei embriagada – doce, sereno e diabólico. Deixei-me ir até à fonte da melodia e lá encontrei o avô – a sua figura trémula no luar como uma aguarela. Do seu canto emanavam dois violinos, uma viola, e um violoncelo. O piano chapinhava ao fundo como uma cascata no Éden. A sua voz era limpida como um cristal.

Ele segurava a neta nos braços e tinha o olhar preso na Lua. À sua frente, uma cova que mais se assemelhava a uma armadilha para ursos. Ele não me ligou – acho que nem reparou que tinha chegado – pois falava com o seu Deus, e eu apenas escutava envergonhado.

Finalmente o seu canto cessou. Olho-me muito fixamente – estivera a chorar – e esboçou-me o primeiro sorriso desde que chegara. Eu baixei os olhos e não consegui devolver-lhe nada. Faltava saliva à minha boca porque faltavam palavras na minha cabeça. Ele desceu à cova com cuidado, deitou a menina, e aninhou-se ao seu lado. Eu quis ir-me embora; virei-me, mas ele chamou-me com uma voz doce. Aninhado ao pé da neta, fazia-me gestos que eu não percebia. Parecia que me pedia para descer e ir ter com ele. Até que apontou para a pá ao meu lado. Queria que eu o enterrasse. Fiz-lhe o gesto para verificar se era isso mesmo. Ele acenou que sim. E eu acenei que não. Disse-lhe:

- Não.

Ele respondeu-me com gestos de mel delicado – muito lentos escorrendo pela terra. A lua esmorecia-lhe no olhar; ele fazia festas sobre o cabelo da miúda e depois agarrava-se a ela com força. Finalmente juntou as mãos como se para rezar, mas o que me dizia era: por favor.

Atirei a primeira pá cheia de terra. Ele sorriu de novo e disse-me num alemão enrolado:

- Auschwitz.

A sua voz trancou-se de imediato. Virou-se para o lado e abraçou a neta com os seus braços enormes e fechou os olhos. Enquanto devolvia a terra, o meu olhar estava preso sobre o dela. Os seus olhos não estavam completamente fechados. Eu sentia um azul esgueirando-se. Mas depressa as minhas lágrimas me turvaram a visão e tive de parar. O azul era eléctrico como a montanha acima. Ele abriu o olhar e olho-me do fundo do chão. Repetiu-me:

- Auschwitz.

Quando terminei, permaneci um pouco junto à esteira da morte. Ele terá morrido escutando a minha vida. O meu batimento. Só muito mais tarde estranhei nada ter ouvido vindo do fundo da cova. Só mais tarde percebi que teria sido natural que algum som abafado se tivesse solto. Mas nada ouvi. Ele engolira o silêncio sem piedade. Nunca percebi o que significava para ele Auschwitz.

No regresso pensei muito sobre esse significado. Sentia-o mais do que o entendia. Como se a humanidade possuísse um desígnio pontual elementar – pelos menos um acto exigível em toda a vida, e o do avô era o de não se separar da neta. Pensei que talvez existisse sempre um momento escuro em que se sente a língua esquentada de pistola sobre as têmporas. E se aguarda um click. O click: o último momento antes do próximo, o momento mais longo de todos. E quando Auschwitz Birkenau se estende estupendo na mente só há uma de duas coisas a fazer – e nenhuma delas é esperar; nenhuma delas é o nada – ou realiza-se o acto ou o acto acontecerá por si; entre o click e o pousar do metal sobre a madeira inquieta passam dois instantes de precipitação: o primeiro fica longe de mais porque foi incerto e o segundo demasiado próximo, porque tentou de imediato corrigir o primeiro, Sim; uma precipitação nunca vem sozinha; vem aos pares. É como as sandálias.

Foi nessas sandálias que regressei, sem saber que afinal, já tinha chegado. Tinha pousado a minha peça de metal. Tinha bebido a pólvora num chá de gengibre. Na surdina das vozes encontrara um desígnio acolhedor como uma oração que desliza pelos tendões da voz. E a voz murmurava breves vírgulas sonâmbulas deixadas ao acaso pelo sábio avô:

“As migalhas adormecem sobre a tarde estafada
E molham o destino com a sua falta de sentido;
É como uma sede por se ser por inteiro,
Uma vida de bocadinhos deliciosamente
Aprisionados numa vontade de existir.”

Wednesday, December 14, 2005

Ensaio Protocolar


A realidade tropeçou e escancarou-se no espaço onírico. A memória que não existe senão em coligação com a dimensão onírica; a memória é recriação a partir de uma estrutura simbólica densamente aglomerada. Daí a memória ser sonho, e os sonhos, apesar de criados a partir do real, serem apenas memória. Sim; o sonho não existe. Existem apenas memórias de sonhos. Como aceitar que a memória represente em papel vegetal o que o real se materializou em sonho, se o próprio sonho é apenas escassamente inteligível à memória.

De outra forma: a memória existe sempre, como um registo magnético. No entanto, apenas algumas memórias são lembradas. Apenas algumas memórias se transformam em lembranças; é como o refluir ondulatório do espaço infra-vermelho até ao ultra-violeta. Só uma fracção desse espaço é inteligível. Tal como apenas alguns sonhos são lembrados, e outros são de imediato apagados.
Mas será que existem mesmo? Deles apenas existem lembranças – ou memórias potências – que por vezes causam desconfiança.
E no entanto é certo que a memória não existe de forma acessível em qualquer instante. Antes pelo contrário. Certas experiências encontram-se tão enterradas que apenas o pulsar excitatório de algum sentido (cheiro, sabor...), permite aceder a algo que, de outra forma, permaneceria inacessível.
É pois legítimo inquirir sobre a possibilidade de existirem outros elementos, tal como os sonhos, que apenas existam na forma de memória, ou que existam sem que tenhamos acesso a eles.

Sim, a questão é legítima. Que outros elementos que nos circundam possuem um representação em estado latente que apenas de forma indirecta indicam a verdadeira natureza do seu ser. Um raio ultra-violeta é caracterizado por um comprimento de onda e uma frequência; mas encontra-se no domínio do invisível. Ou seremos nós invisíveis para um grupo de protozoários que habita cores inimagináveis nesse especifico comprimento de onda?
Basta lembrar uma simples interrogação; o que é que surgiu primeiro: os sonhos ou a memória?
Caso os sonhos tenham surgido em primeiro lugar, é simples entender que permaneceram inacessíveis ao entendimento durante algum tempo. É sabido, por outro lado, que a capacidade de lembrança se formou preferencialmente através do reconhecimento de experiências, padrões, estímulos... A memória como uma teia de experiências acumuladas que geram por associação contentamento ou ansiedade. Esse reconhecimento é imediato em relação à aparência maternal, mais demorado no que se refere ao reconhecimento de uma ameaça. Ou seja, apenas recentemente, se adquiriu a capacidade de aceder de forma voluntária à memória em forma de lembrança; um acesso em forma de registo e não um alerta que é exibido no visor da consciência de forma a prevenir um perigo.

É plausível, para não dizer provável, que a habilidade de sonhar tenha surgido antes da capacidade de possuir a memória dos sonhos.
Repito: quantas outras coisas não existirão sob o manto de uma percepção (ainda) inacessível?

Monday, November 21, 2005

Frisson




O céu dentro da sala iluminava a poeira e esta cirandava em mornos movimentos de convexão; o calor do fim da tarde inundava os espaços tranquilamente. Junto à poeira, fragmentos de fumo eram desbaratados da boca dela como papagaios atordoados pelo vento, e o silêncio era calmo, toda uma calma inundando a espera agora consumada.

Aproximei-me da janela, e pouco tempo bastou para sentir as temporas mornas, sentir o calor iluminar-me a pele; o céu entrava devagarinho naquela sala.

“Sempre soube que voltaríamos a estar juntos, sempre o senti.” – Disse-me ela entre papagaios. Sempre o senti: as palavras ecoavam dentro de mim; as palavras latejavam em mim. Apeteceu-me negar-lhe a certeza; mas a espera havia sido realizada. A espera e a dimensão da espera até ser abandonada. Aquele intervalo de tempo que precede o abandono. Quanto tempo é esse tempo? Virei-me, e via-a com a luz amedrontada esbatendo a sua imagem.

– Sempre. Ora aí está uma palavra que não combina muito connosco…

Ela sorriu, abanando a cabeça, ainda que apenas levemente, e meigamente o céu junto ao sorriso desmaterializou-se. Ela baixava quase sempre a cabeça no sorrir. Ficámos presos no olhar um do outro; os sorrisos engulidos, a luz vertida, e o fim da tarde desbotando-se.

Eu sabia, assim como ela, que toda aquela certeza arremessada era uma revisão inapropriada da história. Não, ela nunca possuíra essa certeza e sim, eu sempre tivera essa esperança. Mas sim, ela sempre procurara um sentido nas coisas – mesmo que caucionada por uma mistificação artificial – e sim, eu nunca a condenara demasiado por esse processo de desculpabilização. Aliás, essa noção de destino sempre me fora útil.
Tentava lembrar-me de um fim de tarde idêntico; sabia que possuía alguns. Alguns debruçados sobre sorrisos e segredos. Alguns com ela. Outros apenas eu e o fumo; o som e a fúria; o tempo e o modo.

Lembrei-me de novo do Jorge de Senna. Sentia-o encostado junto a um precipicio, as palavras suicidando-se mansamente. “Como queiras, meu amor, como queiras...” – ia proferindo em voz murmurante. O resto ia progredindo na sua mente, o poema delineando-se e os léxicos aglomerando-se. Lembrei-me também do poema do Swing: “ É tudo uma questão de swing, my darling, uma questão de saber sair a tempo, Oh yes, Oh no.” Sorri um pouco ao murmurar em voz alta, Oh yes, Oh no. Ás vezes sorriu assim, de forma inadvertida, e é-me impossível arranjar a razão imediata. E depois continuei, mentalmente: “Não, Eu nunca tive queda para kamikaze.”

“O que foi?” – Perguntou-me…Mas não aguardava resposta.

Era a minha vez de acender um cigarro. Voltei-me sobre a janela, assistia aos diapositivos fragmentados das folhagens das árvores, a esfera solar adormecendo tranquila.

Ela aproximou-se, apertou-me o peito com as mãos, apertou-me o pescoço com os lábios. “Tenho de ir” – Expeliu. Tens a certeza, pensei em perguntar-lhe. Ás vezes os acontecimentos precipitam-se de forma tão irreal que sentimos a imaginação apenas como um ninho do real. Um ninho com palhas de sonhos e beijos ousados; um mundo elaborado num futuro meticulosamente detalhado. Um mundo que é apenas a fé de o ser.

“Eu sei – Retorqui. Já estás atrasada”. Os passos dela arrastaram-se, incompletos; ainda senti o frisson da saia elevando-se pelas pernas. Ainda senti o desejo de me virar. Permaneci à janela, afogado no fim da tarde, embriagado com esta verdade que geramos e adulteramos; verdades e certezas que se anulam com o erguer de uma sobrancelha, um cabelo muito negro, uma voz muito intima, uma mulher muito próxima e uma verdade muito nossa.

A espera e a dimensão da espera até ser abandonada. Aquele intervalo de tempo corrompido de esperança; essa esperança que mantém a espera como matéria plausível. A amplitude da espera ou a dimensão da esperança. E aquele ponto estrangulado, aquele cerne anguloso em que a espera se transmuta do momento anterior ao próximo – porque é o próximo que se aguarda – para o momento final – porque se adquiriu a certeza que ele se extinguirá em si mesmo. Resta o tempo entre essa percepção e o erguer-se da mesa do café, ou o levantar-se da cama, ou o deitar-se nela, que nada mais é senão o cerne espetando-se no nervo do imaginário; o cerne rasgando a expectativa da esperança – que é agora nada mais do que isso: uma expectativa, porque se extinguiu no acto da espera.

As palavras assim pensadas deram-me em mais um sorriso; apaguei o cigarro e virei-me. “Quando nos vemos de novo?” – inquiri. O céu era asfixiante junto à entrada onde ela se encontrava, de costas viradas para mim, os ombros muito morenos, a mão apertando a maçaneta.
- Quando quisermos…
E saiu.

O céu ia sendo expulso, vagarosamente. Uma memória aguardava a tarde, entretanto finda de espera tornada ausente. Aquele frisson da saia erguendo-se acompanhou-me de bom grado ainda algum tempo como o restolho da chuva de uma televisão que perdura bem depois de a desligar-mos; ou uma musica que se extingue no gira-discos mas não na cabeça; ou – pior de tudo – um cheiro que nos habita bem depois de dele termos sido despejados.

Os cheiros permaneciam junto ao rebordo da dormência; permaneceriam naquele quarto, e aquele quarto com tudo dele numa poça de memória.

Lembrei-me que também estava atrasado. Por pouco esquecia a noite, aproximando-se; mergulhei no banho.

Ainda permaneci um instante inquieto parado à porta. Faltava-me algo. Não liguei muito a isso. Fechei-a e fui-me embora. O tempo estava denso e irrealizável.

A espera iniciara-se. De novo.