Monday, November 27, 2006

Composição de homem mais tocha

Ele ali estava; suor fétido nas formas, o rancor nos lábios. De novo. Lembro-me de ser criança e ter encontrado um homem deitado na calçada, o corpo achatado sobre os jornais húmidos e um coto soberbo bem erguido como uma tocha.

Nunca tinha visto um amputado; o meu olhar ficou gazeado sobre o membro ausente, o espaço de um braço que não existia. O meu passo estacou e fui puxado com força por alguém que me levava pela mão.

Passei horas e dias com a visão do vagabundo amputado na minha cabeça. O cheiro. O cheiro acompanhou-me meses. Aquele cheiro a sujidade húmida. A cara com uma barba manchada de amarelo-torrado e o olhar destruído sobre as pessoas. Essa cara nunca a esqueci.

Acho que na minha cabeça tinha a ilusão que os membros voltavam a crescer. Ou que se compravam membros novos. Ou que se morria. Sim; devia achar que sem um membro qualquer era morte certa.
Encontrei-o de novo no outro dia. No meio da calçada, aninhado para o lado da estrada, com o mesmo olhar diluído, o coto pendurado sobre as costelas salientes. Abrandei o passo e os nossos olhares confluíram. Sobre mim, aquele olhar impiedoso; um olhar vazio de vida.

Havia este homem que dormitava sobre a calçada; e que não interpelava ninguém, não pedia nada. Não esperava nada. De repente, aquele olhar não parecia tão ameaçador. Parecia um olhar de criança. Um olhar parado sobre um pequeno espaço; talvez sobre um pedaço de infância com sabor a algodão doce e a correrias pela rua.

O homem sem roupas decentes, sem sapatos, e sem um braço. Um olhar feito de não desejo, de não vida. Um olhar sem esperança. Nunca tinha visto um olhar sem esperança alguma.

Ao olhá-lo altivamente pelos meus óculos escuros e percebi sem qualquer desvio de certeza; habitar a vida sem esperança é a pior enfermidade que alguém pode padecer.

Thursday, November 09, 2006

Algumas considerações prácticas sobre o sorrir

O que parece é.

Os pés bem no fundo da areia


Conheci-o por mero acaso. Por interposta pessoa. Aqui há algum tempo. Já na altura as formas débeis saltavam à vista. A magreza do corpo, a lividez dos gestos, a estreiteza das palavras. As olheiras sufocando o olhar radioso enquanto ouvia muito atento. Ele não acenava com a cabeça; cerrava os olhos como se tentasse ver melhor e emanava um pois qualquer. Pois. Era perturbante.
Aquele jeito de ser era como uma boca expectante para engolir silêncio. Uma boca de lábios rochosos. Não gostei dele ao princípio; metia-me medo.


Depois houve um dia que me pegou na mão com quem segura um beijo e disse me com a voz molhada, acho que nunca conheci um acto de beleza tão único como tu. Disse-me assim como se pede um copo de água ou se pede licença. Acto de beleza. Bem, decididamente sabes arrebatar uma rapariga, e ele riu-se com aquele jeito amargurado.

Acho que no fundo já tinha percebido; é suposto uma mulher perceber estas coisas. A forma como ele olhava, ou então como olhava em redor. A forma como olhava, sem nunca parecer procurar; como se entre nós houvesse uma cortina impressionista que deformasse os corpos. Era perturbante.

Durante algum tempo ele apeteceu-me como apetece sentir os pés enterrarem-se na areia molhada e continuar ali, os pés cada vez mais fundos na terra do mar, cada vez mais juntos, o corpo como uma haste de uma flor descarnada. Ficar ali diante de uma imensidão que não se pode tocar mas que se sente. E fiquei; arremessada sobre o meu acto de beleza. Único.

Acho que sabia que não podia ser só a metade. Porque o que sentia era apenas uma metade. Uma metade sôfrega de se destruir aos pedaços. Pensei que aquela estreiteza na voz e magreza no corpo viessem de fora; e estava apaixonada pelo acto que era acolhê-lo. Mas não vinha. Perguntava-lhe, mas não estás feliz, e ele fechava os olhos com força e ria-se. Como se o feliz se esgotasse em te ter. E eu fechava os olhos e deixava as palavras amarrotarem-se no escuro. Ele achava que eu era dele.

Acho que até achava atraente essa ideia da posse e do sofrimento per si. Um sofrimento só de se ser. Em nome do resto do mundo. Em meu nome. Acho que invejava isso. Não sentia a figura marchando pelo mato, mas ouvia o crepitar da caruma; não sentia as sombras adormecidas nos pinhais, mas via as folhas a remexerem-se no escuro.

Depois houve um dia em que deixei de suportar as costelas aguçadas e o olhar poeirento. Ele estava adormecido no meu colo como gostava de fazer e eu só sentia agulhas a riscarem-me o corpo. Tinha os pés frios, e adormecidos debaixo de terra. Tinha de partir porque o oceano estava gelado.

Mais tarde acho que percebi. Acho que ele simplesmente se tinha apaixonado pela própria ideia que tinha de si; e essa gravidade quase que me engoliu aos pedaços. Encontrei-o no outro dia; estava mais gordo. Tinha um ar tranquilo. Lembrei-me do que dizia a minha mãe, tens de o agarrar pela barriga, os homens agarram-se pela barriga.

Jantar na mesa e roupa lavada. Não há metafísica que o valha. Talvez tenha razão.

Wednesday, November 08, 2006

Alguns considerações práticas sobre a preocupação


Só deve ser objecto de preocupação a matéria que, directa ou indirectamente, seja passível de alteração significativa por parte do sujeito.

Caso não seja, não é preocupação: é comiseração.

Friday, October 20, 2006

Eternidade ao amanhecer




Não tínhamos culpa porque o dia se abria diante nós como uma goela súbita
E todos os pedaços de terra levitavam
A argila das sombras envolvendo as planícies de corpos
E todos os pedaços de mar explodiam
A espuma urdindo poros sobre as falésias despidas
E todos os pedaços fogo irrompiam
As chamas doces fulminando céus e galáxias gélidas
E todos os pedaços de amor se soltavam
Porque não tínhamos de culpa de sermos assim culpados
Assim sem dia ou noite, ou tempo algum,
Engolidos nesse embaraço breve de sermos eternos
Em cada amanhecer.

Quote

“No society, no matter how tolerant, can expect to thrive if its citizens don't prize what their citizenship means.”

Salman Rushdie

Wednesday, October 18, 2006

Os Sacos

A luz que entrava pela casa era asfixiante; nunca consegui adormecer com uma luz daquelas. A luz era uma luz de espera. Aguarda a tua vez, agarra o silêncio com os lábios, não te cortes. Não conseguia ficar ali.

A inquietude. Saí. Tinha de sair. Com uma luz destas o céu encontra-se queimado; tem as nuvens meio sonolentas a expandirem-se como uma mancha de tinta. Quando era novo lembro-me do meu pai na sua secretária com as mangas em tecido a cobrir os punhos por causa dos borrões; cheiravam ao verniz das unhas das mulheres. Eu gostava do cheiro; gostava do cheiro a asfixia.

Antes de a minha mulher ficar doente arranjava as unhas todas as semanas. E ia ao calista. Acho que tinha mais cuidado com as mãos do que com o cabelo. Quando discutíamos elogiava-lhe o cabelo que era muito fino e castanho. Sabes muito bem que não faço nada de especial. E ficava com a certeza que não precisava de fazer nada de especial porque tinha o cabelo bonito porque era muito fino e castanho. Tens a certeza que não preferias que o pintasse; e eu dizia claro que sim e ela sorria irritada.

Não consigo ficar quieto a absorver esta luz estéril. Esta luz que mata. Por vezes a inquietude toma conta de mim como uma expressão ínfima de terror. Caminhava pela rua e imaginava-a a chamar por mim. Não a devia ter deixado sozinha. Uma das coisas boas da idade é que a inquietude pode ser entendida como senilidade. Está velho, não sabe o que faz. Claro que sei. Os homens avariam-se, e as mulheres também. Não quer dizer que se estraguem.
Caminhei longuíssimas horas. Uma ou duas. Ou mais. Acho que não sabia o que queria. Quando não sei o que quero ponho-me a andar pelas ruas. Cria-me a ilusão que me dirijo para algum lado; algum lado definido. Mas não caminho para nenhum sítio em particular. Passo pelo barbeiro, sento-me no café, compro uma fruta. Agora já sei porquê que os velhos andam sempre com um saco e o cabelo bem aparado. Nunca vi um velho com o cabelo comprido. Os sacos contêm a melancolia de ter tempo; contêm uma razão para sair de casa.

Eu ainda não ando de sacos. Os velhos que andam de saco sempre me intrigaram. Agora faço questão de não andar de sacos porque já sei a razão. A razão é a demonstração aos outros velhos da sua habilidade em viver por eles, sem ajuda, com toda a independência. Os velhos dos lares não usam sacos. Os outros velhos passam as manhãs e as tardes a competir com o lustre e volume dos sacos que transportam. Trazem nos sacos um quilo de farinha para fazer pastéis, quatro maçãs para a sobremesa, um infinito de desesperança, e a ilusão da actividade.
Esta luz mata-se a ela própria. E mata tudo à volta. Eu dou grandes caminhadas quando não sei o que quero mas eu sei o que quero. Quero convencer-me que ainda sou capaz de andar sozinho pela cidade e que não tenho uma mulher doente em casa. E quero culpar a luz se possível. Ou doutor, doem-me as costas, é esta luz que anda para aí, há que ter cuidado, vai ter de tomar estas gotas.
Gotas, remédios, comprimidos. Os sacos das farmácias são demasiado pequenos para engrandecerem alguém.

Quando o meu pai morreu todos me diziam, o teu pai morreu com uma grande dignidade. Sim uma grande dignidade e um grande cancro no estômago. Mas hoje há remédios, e tratamentos e gotas. Hoje já não se consegue morrer com dignidade. Hoje morre-se quando se desiste.
Ela nesse dia de manhã tinha-me perguntado, gostas de mim. Eu percebi que ali alguma coisa estava mal porque ela nunca me tinha perguntado isso. Gosto de ti como da primeira vez que te vi. Mas na primeira vez que me viste eras casado com outra. Ela sorriu irritada, e eu sorri por antecipação. Mas gostava dela e falava a verdade. Queria pedir-te um favor. Segurou-me a mão A mão com unhas desarranjadas e manchas furibundas. Queria que me deixasses sozinha esta tarde por umas horas, preciso de falar com um velho amigo. Algumas décadas de coabitação ensinaram-me a não discutir. Assenti.

Uma mulher se quiser engana sempre um homem. Quando cheguei a casa já a tinham levado. Acho que me tinha demorado mais do que pensava.

Friday, October 06, 2006

A sagração da primavera

A sagração da primavera de Stravinsky é reconhecida como o marco primordial da subjugação da melodia ao ritmo. Este ballet em dois actos encomendado por Diaghilev e estreado em 1913, desvendou um novo mundo à música com a sua sumptuosidade rítmica, repleta de dissonâncias ferozes entre momentos de celebração extrema e o cansaço moribundo do sacrifício.
A sagração para além de servir de farol para as obras seguintes, é majestosa e imponente. A orquestração necessária é colossal e gerou espanto absoluto na época. Para a executar são necessários mais vinte instrumentos do que numa orquestra normal, a maior parte dos quais são instrumentos de sopro, dos quais oito são trompas; a orquestração é talvez apenas comparável à 2ª Sinfonia de Malher (a ressurreição) que exige dez trompas e que foi executada este ano nos proms.
Esta prevalência dos metais torna a música incisiva e saliente, mesmo nos andamentos mais harmónicos; por vezes apenas uma distonia melódica de cordas é audível, mas contendo sempre harmonias sobrepostas, alternando-se, completando-se, até ao limite de uma fuga atonal.
A sagração evoca uma festa pagã contendo rituais primitivos; a celebração dentro do contexto ecuménico desaparece e com ela a ritualidade da melodia celestial. A sagração não possui nada de celestial; é mesmo a última coisa que se pode esperar ouvir dentro de qualquer contexto religioso; o único episódio religioso digno da sagração é o dia do juízo final. Ou a fantasia da Disney, que utilizou trechos da obra.
A sagração insere-se num contexto de distorção e exagero. Ao mesmo tempo o movimento surrealista expande o legado impressionista, violentando a geometria e as regras espaciais. Les Demoiselles d’Avignon é pintado em 1907 e o cubismo surge como um frémito há muito receado. Stravinsky e Picasso conheceram-se aliás em 1917; um ano mais tarde Picasso casa-se com uma bailarina dos ballets russes, a mesma companhia que encomendara a sagração.
É um admirável mundo novo que se apresenta; tudo o que se encontrava definido e assimilado desmorona-se. A pintura, a música, a política, a física (Einstein ganha o prémio Nobel em 1920). Tudo ao som de Stravinsky e Debussy. E imagino que a história chegou a fim com a tecnologia sinfónica disponível.
Passado trinta anos, a invenção da guitarra eléctrica criaria um novo paradigma. E mais tarde os samplers, um outro diferente; Mas numa escala obtusamente mais diminuta. A história da música terá terminado por volta de 1913.

Monday, October 02, 2006

Cheguei



Passei horas e horas de chuva estrafegante meditando. Meditava num silêncio luminoso, e meditava actos. Os meus actos. Sabia que tinha um pulmão parado; e meditava sobre corpos cobertos de poeira e sentia as mãos molhadas com a cal do pensamento.
De uma forma suficientemente estranha para parecer natural, sentia que os próximos actos iam decidir muito mais que a própria carga natural que o agir comporta. E tinha essa sensação com a chuva a escorrer-me pela cara estanque. Decidir, critério de decisão, árvore de decisão, hemorragia de decisão. Há dessas alturas; uma altura sôfrega e imediata de decisão. A respiração suspensa, o pulmão parado, as mãos molhadas. E a chuva rufando como tropas marchando aguadas.
Silêncio na audiência em mim. O jogador russo segura o cavalo na mão; a jogada poderá ser determinante. E o jogador russo engole a peça e arrota uma libra de ouro.
Estive quase a ceder. Saber o que o destino importa sem ser no haraquiri. Não; pôr o sabre de lado, e meditar. E assim meditei.
Concluí, como o Lobo Antunes, que o mundo foi feito ao contrário. Feito do fim; e é pelo fim que se deve começar. Para onde se quer chegar. É como os labirintos; os labirintos são incrivelmente mais simples se se começar pela saída. É assim que se faz, está nos livros.
Começar pelo fim tem a grande vantagem de permitir a instauração de uma imagética infra-racional. No momento anterior à decisão, ao acto racional de deliberadamente excluir um caminho – sim, se fosse possível escolhia-se os dois e não nenhum, o que, apesar de tudo, também é curioso – encena-se, não o percurso, mas o momento final. Simples e trivial e constante
O caminho deve ser tapado; deve-se colocar uma manta sobre ele. Não se deve ver o caminho. Sim, o conflito não surge da tomada de decisão. Surge da acção que daí advém; do caminho a percorrer. Quase sempre.
O mundo começou pelo fim, e daí chegou a um princípio de uma forma impensável. Foi isso que fiz. Foi só seguir as setas.
Cheguei.

Sunday, September 03, 2006

Um sem o outro



A forma como dizes que sim; e que não. E a forma como dizes as duas ao mesmo tempo. Em simultâneo para ser correcto. E eu digo que talvez, mas talvez queira dizer o mesmo que tu. E em conjunto não dizemos nada, os lábios presos nesse nada adocicado, e as peles cozidas sobre o silêncio.

Não, porque sim, essa proposição sórdida; mas depois mexes no cabelo e ajeitas o sorriso com o olhar. Talvez, e eu digo, porquê, mas já o silêncio jorra entre os nossos corpos rarefeitos, um do outro. E nós nunca seremos nem um nem outro, mas um apetite de nos tornarmos únicos, como um copo de vinho espalmado sobre o deserto impávido.

Sim, nós somos algo de estranho, Principalmente, um sem o outro. Resta o adagieto de Malher ao fundo. E tudo volta a fazer sentido.

Friday, September 01, 2006

Lettre à Monsieur Kundera



Actos existem em que não estamos nós, mas um aglomerado de primeiras pessoas do plural, todos entrelaçados por um único desejo, mesmo que, por vezes, seja imperceptível.

É exemplo disso o acto de aplaudir; nesse acto existem sempre duas incertezas: a hesitação do aplauso inicial (ninguém quer ser o primeiro a aplaudir), e a hesitação da duração desse aplauso (ninguém quer ser aquele que vai dar as últimas palmas que irão soar a um móvel a cair no chão).
Em ambas a circunstâncias reside o temor de, numa sala repleta de público, o único aplauso a ecoar ser o nosso, e de imediato todos os olhares se pousarem sobre nós. Dirão então: “Será que aquele ainda não percebeu que não está mais ninguém a aplaudir?” Ou pior: “Porquê que ele está a bater palmas se a peça ainda não acabou?”

Constrangimentos sucessivos surgem nestas situações, todos relacionados com o sentimento de nos sentirmos isolados da multidão. Porém, casos há, em que não é a solidão que nos constrange entre a multidão. Durante o acto do aplauso, esse acto partilhado pelo público, surge um sentimento de comunhão entre perfeitos desconhecidos por um elemento que, provavelmente até à altura, seria também desconhecido.

Os aplausos propagam-se (a palavra correcta seria francesa: répandre) e em nós propaga-se o fervor da comunhão. Existe um claro desfasamento entre a decisão tomada de terminar o aplauso, e o acto físico de o terminar. Pegando nas palavras de Jorge de Senna, um dos poetas mais esquecidos do meu pequeno país e retirando-as do seu contexto: “...Este pousar em que não estamos nós, mas uma sede, uma memória...” Este pousar em vez de mãos que se interrogam, é um estremecer de vibrações, uma energia colectiva que se aglomera, e perpetua o acto do aplauso, sempre, muito para além do razoável. Pegando no mesmo cenário (caso ainda não saiba estamos num teatro e acabamos de assistir a uma interpretação gloriosa do Hamlet), identificamos outro conceito essencial nesta comunhão de massas: a energia mínima de activação.

Esta será a quantidade energética necessária para que surjam aplausos, ou que as pessoas se levantem, ou que vaiem a interpretação. Assim, se no final do espectáculo, apenas uma ou duas pessoas se levantam para aplaudir a interpretação, as outras pessoas não se sentirão pressionadas para o fazer, e continuarão o seu aplauso sentadas.

Se no entanto o número de pessoas que se levantarem chegar à energia mínima de activação, o restante público sentir-se-á pressionado para o fazer também, e é certo que a maior parte da sala se irá erguer para aplaudir de pé (mesmo que considere que a interpretação foi apenas razoável); tal não significa que todos o façam (alguns poderão entender que a interpretação foi de fraca qualidade), mas por certo que agora esses irão sentir-se como nós há bocado, quando começamos a aplaudir esta mesma peça antes dela ter acabado; e essa sensação é a que pertencem a uma minoria e que estão a ser observados pela vasta multidão, com desdém.

Em tudo o que não é certo nem objectivo, seguir o outro faz sempre imenso sentido – mesmo que o outro seja desconhecido e não concordemos particularmente com ele.


Talvez seja por isso, que a arte é tantas vezes um mito fundamentado pela opinião de poucas pessoas, e acaba por, enquanto arte, ser admirada, nem por artistas nem por qualquer público, mas por algumas pessoas muito decididas no acto de aplaudir, ou vaiar.

Sunday, August 20, 2006

Descendência



E o silencio assim tão melodioso. As tardes meio nauseabundas com as crianças a brincarem sobre o gramado celeste da imaginação. Estou velho, meio rarefeito e quase já não sinto dor. Quando era novo sentia a dor só por poder. Estar vivo é uma forma de ser.
Nunca tive filhos, nem nunca pensei nisso a sério. O meu pai dizia-me feroz
Um filho não é um brinquedo. É uma nova vida: a tua.
Quando o dizia, soerguia a sobrancelha e engolia os lábios. Eu respondia com estórias mitológicas, e ele ia buscar uma cerveja à minha mãe.
O silêncio como um segmento de recta. Passei a minha vida toda a procurar o silêncio e agora estou farto. E Vivi quase metade da minha vida com uma mulher que dizia que este mundo não servia a ninguém.
Queres pôr um filho num mundo que vai acabar sem ninguém perceber porquê.
E eu concordava que o porquê não seria perceptível porque o mundo iria extinguir-se num momento de loucura, e a loucura só é inteligível por quem já por lá passou.
Mas estava a mentir.
A minha razão não era o fim mas o princípio. Nunca percebi o princípio e aterrorizava-me a ideia que o meu filho me perguntasse sobre isso e eu não tivesse resposta.
Pai, quando morreres, para onde vais.
E eu imaginava o silêncio dos sinos presos às pálpebras dos meus filhos enquanto morria. Nunca quis ter filhos para que não ficassem sem pai. A afirmação causava desdém irracional em todos os que conhecia.
Mas não achas que devem ser eles a decidir.
E eu ia buscar mais uma garrafa de vinho para entorpecer os membros aquosos da percepção. A certa altura quase que sentia que não ter filhos não era uma decisão minha. Sentia que olhavam para mim como se os tivesse morto. Não era um homem sem filhos; era um homem que os tinha assassinado com uma serra eléctrica.
Não foi propositado, nem de uma parte nem de outra, mas a certa altura afastei-me dos meus amigos. Faltavam as conversas sobre os filhos. E faltava a mulher para os programas a quatro. E quando digo a quatro não me refiro aos meus membros pousados sobre a alcatifa fibrosa.
Então e a tua mulher está boa.
Ela não é minha mulher.
Então porquê.
Porque sim.
E a conversa ficava por aí, sem mais vocábulos para inserir na circunstância. Sim, há dez anos que é tudo circunstância. Sou um homem sem descendência e isso é perigoso. Talvez contagioso.
Em momentos mais elaborados explicava que eu e a minha mulher que não é, se tivéssemos filhos, eles nunca iriam querer deixar descendência por nada deste mundo.
Mas isso é uma decisão a dois.
Não. Basta um.
A verdade é que nunca tive paciência para crianças. Nem para adultos. Nunca tive verdadeiramente paciência para nada. O lar custa-me metade da reforma. O resto dou às enfermeiras para se despirem e depois mijarem no bidé. E depois.
Para ser sincero, nem para mim tenho muita paciência. Nunca nada me interessou especialmente neste sítio. Nunca conheci ninguém verdadeiramente consciente dos seus actos.
A consciência é um estado intermédio entre a apatia e a euforia.
E as definições são a negação do medo em não aceitar que as coisas não fazem sentido nenhum.
Não deixo descendência, mas deixo a dúvida do silêncio.
Não. Não deixo nada.

Sunday, July 23, 2006

Dá-me as minhas palavras



Dá-me as minhas palavras. Não dou. Dá-me as minhas mãos. Não dou. Dá-me as tuas. Pensar em silêncio entre a lama. Combustão interna de pensamentos. Não te vás embora. Tenho de ir.
Decidir. Verbo inatacável. O verbo que não devia ter passado – e a ter seria sempre imperfeito. Vem. O imperativo unicelular; como se o pensamento se desse em beijos soltos, e assim criasse uma mononocleose intelectual. Olá, tenho uma angina monolítica. Olá, eu sei quando é que vai ser o fim do mundo. Muito prazer.
As vezes sou um elemento externo. Como assim. As vezes sinto intensamente um mundo sem tempo, uma coisa sem propósito causal. Referes-te ao imperativo – a acção inconsequente. A ordem impede o pensamento. Então digo-te em imperativo lato: pensa. E eu penso então que o imperativo impede o pensamento. És circular. Olá, eu sou elíptico.
Ontem vi um morto. Era bonito. Deviam avisar antes. Porquê. Para ir à casa de banho. Sim, as vezes imagino-me dentro de um caixão cheio de mijo. Estou debaixo da terra e não tenho rede. És neurótico. Olá, eu desenho palavras.

Tuesday, June 13, 2006

A palavra e a cerejeira


Sempre que a vista me fica cansada e as mãos me começam a tremer, a escrita fica-me dócil e obediente como se as palavras zumbissem na cabeça a pedir para vir cá para fora; e eu deixo-as ir brincar para a rua como crianças no recreio da escola.

Sempre que a vista me cansa e as olheiras se cerram como duas aranhas aconchegando-se num ninho, o pensamento solta-se e perde-se por entre os dedos como um líquido frágil e morno. Aí desaguo sobre a infância e vou sempre dar à casa onde gastei a minha criancice; desaguo sobre a mata a ferver com caruma seca; desovo na água fresca do poço. Mais que o pensar, as sensações enumeram-se como se fossem a fuligem esvoaçante de um carvão ardente feito de infância irrequieta.

Sempre é uma palavra que se gasta facilmente. E tento evita-la como os cães evitam as salamandras e os bichos da peçonha com aquele ar de quem não quer ser visto a evitar.

Na casa onde gastei a minha infância havia uma cerejeira onde cresciam cerejas que não se podiam comer. Mas a flor da cerejeira era a mais bonita das flores, por isso a cerejeira lá permaneceu, criando flores e não cerejas.

Sempre que deixo de pensar, junto as mãos e sinto o tempo escorrer-se pelas frinchas dos dedos. Não me importo que ele passe assim, nem que o pensamento deixe de o ser, mas custa-me sentir como uma ampulheta de mim mesmo, em que me esvazio aos poucos do tempo que me resta.

Sempre é uma palavra que não consigo perceber de onde apareceu. Mas trago sempre duas ou três comigo, não vá o diabo tecê-las. Quando era criança inventei uma palavra para o sempre do espaço porque disseram-se que essa palavra era infinito e eu não gostei muito dela. Um sempre que fosse a distância da minha casa até à serra e daí até outra serra e dai sem nunca mais acabar como uma viagem sem fim. Satisfazia-me que o nunca do espaço fosse o vazio porque o vazio eu percebia muito bem.

Mas esqueci-me da palavra uma noite quando adormeci e me esqueci de me despedir dos meus amigos imaginários que eram pessoas que não existiam mas que eu fingia que existiam só para conversar com eles sobre coisas importantes.

Eles ficaram chateados e ficaram-me com a palavra. E eu transformei a infância numa espécie de coisa incolor cheia de rasgões nos joelhos e sabores que não voltei a provar. Deixei-a a um canto cheia de palavras inventadas – ou porque não gostava das que existiam ou simplesmente porque não as conseguia dizer.

Ou então porque gostava de inventar palavras. Palavras como cerejeiras que só dão flor.

Wednesday, June 07, 2006

chiffon




Os silêncios pingando pela goela, intermitentes, deslizando pelo esófago, acocorando-se sobre destino. Estou de cócoras, não estás nada. Pausa. Silêncio pontiagudo.

Um dia quando acordar pela manhã e o lume da noite ainda estiver quente; uma manhã enroscada sobre a copa dos jacarandás. No feltro dos lábios desabado. Uma manhã. Estremecer. De que cor queres os lábios. Da cor dos jacarandás.

Tenho lido Rimbeaud; depois apetece-me ficar a olhar ao espelho. E vou pronunciando embriagado a palavra dechifrer, e por vezes digo chiffon, ou Lamartine, o inoportuno autor do verso estanque – j’ais un univers mort dans ma gueule.

E pronuncias lentamente. Pronuncio tudo lentamente. Ouço o piano ensurdecedor. Repito incessantemente a homage a Rameau, o próprio silêncio é luminoso. E o que vês ao espelho.

A própria imagem perde-se e atinjo a fundura do acto de me ver ao espelho como se me pudesse ver verdadeiramente; sem duvidar do acto que o que vejo é o que sou. Je fonce sur le mirroir. Do outro lado estás tu. Estou lá à espera. Sempre receei a amputação.

Um dia quando as mãos súbitas desenroscarem o casquilho dos corpos amanhecidos; e os olhos se soltarem da dormência do amor fermentado. O amor à base de glicose. Sim; o açúcar cozido à pele como um verso dócil na madrugada. Tens desses versos. Não; apenas silêncio. Silêncio contaminando o útero. Então é um para agora e outro para levar.

Wednesday, May 31, 2006

As peles não criam electricidade


As mãos dadas e os segredos guardados na cómoda.
O silêncio pesando como um abraço granítico.

Tenho um universo morto na minha garganta; engulo cores e diapositivos de placentas.
E aglomero léxicos desprevenidos com a saliva espessa.
Algumas coisas gravitam e outras são estáticas.
Algumas rodam e outras estão fixas.

Algumas coisas estão simplesmente feitas para nunca se encontrarem; é a distância que as cria – não o contacto.
Entre elas um murmúrio musical como a catedral engolida.

Mesmo de mãos dadas, as peles não criam electricidade.

Sunday, May 14, 2006

Lisboa embargada


Lisboa embargada, Lisboa adormecida. Já te falei de Lisboa. A Lisboa amanhecida que me fixa estremunhada. É a minha Lisboa. Aquela luz suave que desliza pelos ossos e anuncia as estrelas. É dessa Lisboa que falo. A minha Lisboa.


Quando me disseste aquilo, não pude deixar de pensar no fim de ano. As janelas abertas nos prédios amarelos pálido. Havia aquela necessidade de verdade imensa.
Sabes o que é que fiz a seguir? Sigur Rós como um transplante de córnea. Na voz de JFK disse-te, Nós somos todos Islandeses.

O gelo sobre a pele, e a verdade como gelo. A ordem lógica das coisas. É claro que sim. Vais-me perdoar se discordo que as coisas têm uma ordem, e que essa ordem é lógica.

A única coisa lógica é a Lisboa que se embebeda sobre a calçada estéril. O que é bom. Se a calçada se reproduzisse com a especturação dos Lisboetas, Lisboa seria a maior montanha de calhaus deste planeta. Mas continuaria a ser a minha Lisboa.

Thursday, May 11, 2006

Memory is a good thing if you don't have to deal with the past



Quando ele a viu, ele era exactamente aquilo que ele queria que ela visse; provavelmente nem era exactamente aquilo que queria ser. Mas era aquilo em que achava que ela queria que ele se tornasse. E isso é independente da hipotese se voltarem a encontrar.
Sim; mesmo que ele tivesse a certeza que não voltariam a ver-se, ele tentaria atingir aquela imagem hiper-estabilizada, segura e disponível. Por mais inconsciente que o processo ocorra, a verdade é que quando se anseia um reencontro com alguém, esse reencontro é com mais do que uma pessoa. É com essa pessoa e com a pessoa que era-mos. Uma pessoa ainda não ciente do desejo de possuir uma imagem hiper-estabilizada, segura e disponível; e completamente não ciente do desejo permanente que a outra pessoa – que nos faz desejar ser isso – provoca em nós.

Bem que se pode argumentar com o tempo em que o fomos; uma coisa é certa: ser novo e ter certezas nítidas está apenas ao alcance de quem é novo e não tem esperança nenhuma no que o futuro lhe possa reservar – demasiadas certezas demasiado cedo é um acto de intensa desesperança.

É portanto obvio o que acontece – e ao mesmo tempo ridículo, e por isso mesmo ridículo. Existem tempos em que se vivem momentos únicos e irrepetíveis da vida. Não que não se desconfie que são únicos. Eles são sentidos como tal e é isso que, logo no momento, os tornam únicos. O que não se desconfia é que são irrepetíveis. Principalmente para quem os vive na altura.

Como distingui-los então? Como saber que o foram? Não é difícil. Basta reparar numa absurda tendência (uma espécie de patologia hepática) em encenar as mesmas circunstâncias com pessoas diferentes. As mesmas situações, provavelmente até nos mesmos sítios, de uma forma estranhamente semelhante. Uma óbvia encenação de um reencontro, não com o objecto original, mas com uma réplica que antes não o era – nem se pretendia que o fosse – mas que, por não provocar o burst anterior, o mesmo estado de enchantement, mimetiza-se em tal.

No entanto o processo é inevitável, pois só quem não cede à desesperança demasiado cedo é que interrompe a continuidade dessa circunstância idílica por um futuro totalmente incerto – que é aliás a mesma sede de futuro que leva o encontro original a desenvolver-se de forma tão intensa e completa.

Sunday, April 23, 2006

Taxi




Mesmo que de forma extremamente incompleta podíamos ser felizes... Ela riu-se; um pouco sem querer, mas riu-se e disse-me: de forma incompleta. E deixou um tom de interrogação no ar. Sim, de forma completamente incompleta, mas felizes, a espaços. Aí ela riu-se à séria. E disse: nem de forma completa ou incompleta, isso é impossível. Mas eu gostava do impossível com ela e disse-lhe: podiamos ser impossíveis os dois juntos. Aí ela não se riu; antes mascou o lábio e engoliu um pouco do cigarro que fumava e disse: estás a falar a sério? Mas aquilo não era bem uma interrogação; antes um desafio – tipo, não eras capaz? E eu percebi isso; ao de leve. E disse-lhe: Sem querer dizer o que sinto, quero não dizê-lo contigo. Aí ela riu-se mesmo. Disse o meu nome, o que nunca fazia e disse: Tens dinheiro para o táxi? Peguei-lhe na mão.
E peguei nela toda. Ela passou a mão pela minha boca e disse: O problema é que vamos estar para sempre num táxi, sem nenhum sítio possível para estarmos juntos. E eu pensei, juntos somos duas pessoas diferentes, que só se gostam ao longe. Juntos seríamos iguais a todos os faisões transeuntes na rua de mão dada.
E então disse-lhe: prefiro um táxi para sempre do que uma paragem deslavada. Ela riu-se e fomos embora.
O cheiro da areia molhada completava o silêncio.

Tuesday, April 11, 2006

Os Anos Indecisos



As vezes pensava em ti; o suficiente para entender que mais do que pensar, sentia o que pensava; e o que sentia eram centenas de tardes abafadas e desprotegidas – aquelas tardes em que se sentem os grilos como uma frigideira fervendo azeite e ar ondula espesso sobre o horizonte. Tardes em que o corpo se torna lânguido e a pele se aglomera em languidez excessiva que tenta, mas não pensa – num não pensar muito mais do que se sente, mas que não é sentir porque apesar de tudo, é lembrar.
A memória estava assumidamente por toda a parte, é certo: estava no cheiro da chapa quente do carro, no sal esvanecido nas bocas, no próprio afundar dos pés nos cristais das praias. A memória estava no parapeito dos corpos próximos e os corpos distantes como o esquecimento.

Por vezes não é a memória que fica, mas o cheiro de um tempo indeciso; um tempo antes de haver memória. Esses anos indecisos que foram anos em que os actos surgiam na mesma proporção dos desmanchos. O arrependimento não se aglomerava o suficiente para o ser; em anos indecisos o arrependimento é como cotão que surge do pó dos actos e que se desprende com um único hálito sôfrego – o arrependimento trata sempre mais do que se poderia ter feito (e se deixou de fazer) do que o que não se fez.

Os desmanchos sucessivos em palavras inquietas como nós; as horas perduravam centenas de palavras por dizer, mesmo que na realidade tivessem passado centenas de tardes em que nada tenha ficado por sentir. Depois sobravam os silêncios; mas não importava – um silêncio que indica um fim é bem diferente do silêncio que marca o início. E em anos indecisos nada configura a aparência de um fim; tudo é um elástico interlúdio.

As vezes pensava em ti e tudo me parecia bastante menos elástico. O tempo tem essa capacidade de solidificar a indecisão, até que o acto – por mais indeciso que tenha sido – se torna granito escamoso com saliências a saber ao sal esvanecido nas bocas e aos cristais que o silêncio soldou aos corpos. Mas é um bom silêncio; um silêncio com açúcar. Sim, nada é tão doce quanto a certeza que cada partícula acidental de tempo foi destilada até não conter um milímetro de açúcar. O açúcar amolece-se na boca e pouco tempo após, uma ninhada de álcool abrupto é engolida de um só trago. O olhar revira-se e as mãos tremem; mas sabe bem. Quase que sabe a nós.

O pensar que é como um sentir-se, mesmo que a memória seja virada do avesso e apresente coisas novas como tardes que ainda faltam viver durante toda a vida.

Os sorrisos vertiam-se sobre a chapa do carro abrasiva. Nada é mais reconfortante do que sentir que o tempo está do nosso lado.