
La vérité appartient à ceux qui la cherchent et non point à ceux qui prétendent la détenir."
(Condorcet / 1743-1794 / Discours sur les conventions nationales, avril 1791)
A verdade é como o açúcar nas rabanadas; sem açúcar as rabanadas passam a ser outra coisa qualquer, mas demasiado açúcar, torna as rabanadas intragáveis. A verdade deve ser doseada como um parasita deve dosear a colonização do seu hospedeiro. Se for de mais, o hospedeiro morre – assim como o parasita; se for de menos, o hospedeiro consegue desenvencilhar-se do parasita. Um equilíbrio de segunda ordem, vago, incerto, não linear – uma espécie de equilíbrio amoroso.
Não me permito cair nessa tentação fácil – a analogia entre o parasita e o hospedeiro, e o exercício dos afectos. Mas permito-me pensar no estado de transição: não na passagem do sinal vermelho para verde, mas na singularidade do laranja.
O laranja é tão instável que no limite não existe – ou não é nomeado. A mudança de fase da matéria, o tipo de escoamento de um fluído, ou qualquer estado binário implica uma transição não regida pelas leis aplicáveis aos estados imediatamente anteriores e posteriores.
É errado dizer que a água congela aos 0º. Normalmente, o processo de solidificação da água inicia-se através da cristalização de certas impurezas na sua geometria. Mas expurgada de todos os sais, e em algumas circunstâncias de arrefecimento, o zero deixa de ser zero para a água – o mínimo alcançado foi 18º negativos. Mas tal não implica que a água se encontre num domínio estável em cada um desses dezoito graus entre o 0º e -18º. Não se encontra: diz-se em transição; no fundo, é como o sinal laranja – não existe se não numa fase de transição entre dois outros estados.
A singularidade do laranja é óbvia; a partir do instante em que algum processo está laranja, há pelo menos uma coisa já se sabe: que não vai permanecer laranja. Infelizmente, não é possível conhecer o sentido da mudança, pois o fenómeno tem histerese.
Normalmente, uma reacção ocorre num sistema, antes em equilíbrio, que se altera de um estado inicial para outro. E pouco mais. Mas quando a reacção é histerética, não é suficiente conhecer o estado inicial – é necessário saber como é que se chegou até lá. Um sistema em histerese tem memória.
Em alguns países, o sinal laranja não surge apenas entre o verde e vermelho, mas também entre o vermelho e o verde. Ou seja, antes de o sinal passar a verde, passa a laranja primeiro. Isso tornaria o sistema histerético – olhando o sinal laranja, seria impossível saber se ele ia mudar para verde ou para vermelho. Para o saber, era necessário saber como é que ele ficou laranja; sem essa informação, apenas se sabe que, em breve, ele vai mudar.
Não me parece surpreendente que sejamos histeréticos – apesar de tudo, temos memória. O que me surpreende é a dificuldade em apreender o laranja. Principalmente quando é um bom laranja. Ou seja, em perceber que algumas vezes, se vive um estado transitório – um bom estado transitório, mas ainda assim transitório.








