Friday, February 23, 2007

Sin (Ai + X)

A sinusóide por aqui perdida, meio lombriga, meio conjunto de agrafes em magnética consolidação. A sinusóide que é analítica na forma, mas sem equação de movimento. Nunca como agora entendi aquela teimosia aguerrida em devorar o Crime e Castigo; e devorar vodka requentado pela manhã.
Em tempos criei uma escala que media a melancolia. A palavra só de si é tão bonita que merecia um aparelho de medição: era o melancoliómetro. Arrumei-o a semana passada; o mercúrio das suas veias tinha congelado.
A sinusóide é pior que um parasita. O parasita ao menos precisa de um hospedeiro – e alimenta-se dele a níveis que o permita sobreviver. A sinusóide não; a sinusóide é o próprio hospedeiro na sua duplicidade de molusco. Eu sou eu mais a minha sinusóide voluptuosa.
Há pessoas que não sabem fazer sinusóides; não é o meu caso. Conheço o Seno desde miúdo. Desde sempre que o senti como o trilho triturado, o mecanismo de sequência dos gestos – os gestos arrepiados ao instante.
Se a melancolia fosse uma distribuição estatística era a uniforme. Uma variável aleatória ponderada, constante, líquida. Entre ela e esta sinusóide radioactiva, um vazio sensitivo desmerecido.

Friday, February 09, 2007

Montparnasse



A luz põe-se doce sobre o horizonte e reconforta o cinzento empalidecido que transborda pelas ruas. O cinzento que esborrata a calçada é agora melancólico e empedernido – muito contrastante com a euforia que preenchera a alma em Agosto. Os homens que partiram no Verão da estação de Montparnasse com sorrisos garbosos e poses convictas divagavam agora sorumbáticos nos interiores dos cafés mais baratos; aí o absinto era vertido pelas goelas secas pelo pó e pela verdade.

A luz que se põe já não alumia olhos ardentes e espumosos; os olhares pouco se cruzam e poucas palavras são trocadas; os homens descansam a um canto de jardim com sacos de papel encamisando o vinho jubilante; os homens bebem e a luz põe-se enquanto os corpos secam na margem do Somme.

O capitão António Simão ganhara o posto na tomada do arsenal do Alfeite às forças leais ao Rei; fora aí que perdera vista esquerda. Conta quem lá esteve que o capitão marchou 70 metros com o estilhaço saliente na cavidade ocular, sem que mais nenhum projéctil o atingisse até uma posição forte com sete praças e um sargento. Estes, impressionados com a valentia do capitão – e com a sua figura deformada – deixaram cair as armas e renderam-se. O capitão usava desde então uma pala que lhe ocultava a vista trucidada e lhe exponha a cegueira a metade. Quiseram colocá-lo na reserva, até porque a vista atingida era a do olho director. Mas o capitão manteve-se irredutível, e foi com agrado que ouviu notícia que um corpo expedicionário partiria para a Flandres.

Guerra na Europa, uma grande guerra. Esta ainda era uma geração de ideais, que habitou um tempo feito de revoluções, reis depostos, e tratados selados com a honra. Eram homens de bigodes recortados, caras escanhoadas, belíssimos uniformes e uma colónia intensa. Mas esta guerra tinha sido diferente das outras; tinha sido uma guerra sem heróis. Alguém dizia no Herald Tribune: o único herói desta guerra é o soldado desconhecido.

A visão da chegada do corpo expedicionário português a Santa Apolónia foi das mais tristes que o país vivera. Os pais aguardavam os filhos ausentes, as noivas os homens perdidos, e alguns filhos tentavam espreitar por entre as plissas das saias. Os poucos que foram devolvidos com vida apresentavam-se estropiados, com a respiração arfante devido ao gás, a cara lívida e todos eles, sem excepção, caminhavam com o olhar fixo sobre o chão.

Aos pais que encontravam filhos com vida, logo dezenas se quedavam num soluçar imenso. Mas os homens não queriam as suas famílias; queriam ficar entre eles, entre a sua terrífica normalidade, junto de um cheiro e uma linguagem que conheciam. O país vira-se ceifado da sua juventude e implorava agora perdão aos que regressaram.

O capitão António Simão não tinha ninguém à sua espera. Passou de forma abrupta por todos, escusou-se a falar ao general Sousa Pais que estava presente da recepção. Desapareceu. Enquanto as famílias rodeavam os sobreviventes com graças a Deus, e a fanfarra tentava alegrar as hostes, os homens iam perguntando com preocupação, Onde está o meu Capitão.

Conseguiste ficar com o outro olho? Foi com a sua doçura natural que Teresa recebeu o Capitão. Não tens nada que se beba nesta casa. Serve-te à vontade, mas olha que o Afonso deve estar aí a chegar. O capitão sentou-se na sala com uma jarra de brandy ao seu lado. Ficou a olhar para Teresa. Verificou a sua arma no coldre. Aquela guerra ainda ia reclamar mais um corpo. António, não sei o que é que pensas que vens cá fazer. O capitão esvaziou o copo e serviu-se de outro. Tirou a arma e apontou para a foto de casamento de Teresa e Afonso. Suspirou um bang. Venho dar os meus parabéns ao meu querido amigo pelo seu recente casamento. Teresa sentou-se à sua frente, a expressão inquieta, o olhar molhado. Aquele homem estava ali para matar, não lhe custar nada – era isso que ele fazia da vida. Ela não ia conseguir demovê-lo.

António, o Afonso é uma criança. E os duelos já não são permitidos. O Capitão lançou uma gargalhada que terminou de súbito. Quase se engasgou. Mademoiselle, mas quem é que falou em duelo? O teu querido Afonso vai apanhar dois balázios mal entre por aquela porta e não penses sequer em te levantar daí para o ir avisar.

Afonso abriu a porta com despreocupação e ainda avistou o olhar imóvel de Teresa antes de encarar o corpo do Capitão António Simão estendido no chão, ainda vivo, com a garganta aberta. Á sua frente, esvaía-se em sangue o único herói português da Grande Guerra.

Friday, January 26, 2007

Um pequeno (e raro, raríssimo) comentário político


As últimas eleições autárquicas foram marcadas pelo conflito entre as impolutas direcções partidárias e as ímpias hordas de líderes regionais renegados. Dessa forma, o Major Valentão, Isaltino UBS, a Luso-Brasileira Fátima, e Dr. Diácono Avelino Torres ergueram a espada e a voz contra o boicote do aparelho. E ganharam. Quase todos.

Em Lisboa, pelo contrário, os dois maiores partidos juntaram-se num grande bloco central contra Santana Lopes. O PSD não o apoiando para uma recandidatura e o PS comprometendo-se a escolher um candidato desconhecido, vindo das bases, com pouco mais da quarta classe. O senhor escolhido foi o Zé Maria – eminente especialista galináceo, vencedor da 1ª edição do Grande Irmão, actual naturalista urbano. No entanto, logo emergiu a hipótese de uma grande coligação de esquerda emergir sob o julgo dessa notável figura pública. Sá Fernandes e Ruben de Carvalho acreditaram que Zé Maria poderia encarnar o protótipo do bom selvagem na política portuguesa. E então o PS deixou-se de brincadeiras, e num momento de clareza wagneriana escolheu o Dr. Carrilho para candidato. Perdeu a coligação de esquerda, perdeu Rousseau, ganharam os humoristas deste cândido país. E o Professor Carmona foi eleito.

O impoluto Professor Carmona – possuidor de uma carreira política digna do posto de papagaio executivo no ombro do seu pirata – lá acedeu à vaga de fundo que o pretendia eleger. Mas a eleição tinha um preço: cuspir na mão que antes o alimentara – neste caso, abocanhar o ombro que antes o albergara. No entanto o desafio era irrecusável; ser candidato único ao maior município do país, com o único galináceo ao seu nível desterrado em Barrancos. O professor avançou; o PS colocou o Dr. Fontão (anterior braço direito de Jô Soares) como número dois da lista do PSD; a Mizé assentiu e o mundo pulou e rebolou de alegria. E o Senhor M. Mendes tornou-se para sempre o guardião da moralidade política.

Entretanto, chegaram a Lisboa da província uns senhores com dinheiro para esbanjar. Fez-se o negócio do Parque Mayer; o Dr. Mexia – outro excelente exemplar dessa espécie avícola que fala – vendeu um prédio na Infante Santo enquanto depósito industrial. E logo a autarquia o tornou em zona residencial. Entre licenciamentos na linha do TGV, tentativas de corrupção dos senhores de Braga, buscas nos domicílios dos vereadores, trapalhadas na EPUL, e a demissão da vereadora que formava a maioria, a oposição camarária fez o que se esperava dela: demitiu-se.

É verdade, o Dr. Carrilho não se lembrou de nada melhor para fazer se não, diante de tal sucessão de escândalos, ir para casa fazer uma reciclagem no seu Schopenhauer. Ficaram a perder os humoristas deste país, ficou a perder Schopenhauer no seu túmulo, e ganhou a restante humanidade.

O que restou portanto? Resta a maior autarquia do país sob suspeitas de corrupção e gestão danosa, com vereadores acusados pela PJ e com mandatos suspensos, outros aí na calha, uma autarquia sem maioria, e sem oposição – aliás, os dez mil votos do Dr. Sá Fernandes se fossem acções seriam uma Golden Share. E resta o impoluto Professor Carmona arranjando as penas lustrosas com um bico assaz gasto. Ah, e o guardião da moral pública, o Sr. M. Mendes, a escrever éditos sobre como dizer que sim e que não em simultâneo sobre assuntos em que o seu partido não tenha posição oficial. Ou sequer posição para decidir seja o que for.

Wednesday, January 24, 2007

Holocausto Sazonal


Janeiro nas suas pinceladas agridoces. Janeiro transparente esvaziando-se, esgazeando-se. Há poucas folhas sobreviventes no holocausto sazonal dos plátanos e ulmeiros. Os jacarandás prosseguem a sua introspecção tranquila – os galhos despenteados assemelham-se a eléctrodos desactivados e as copas estalam segredos assinados com canivete.

Em Janeiro, as luzes e os enfeites de Natal são guardados. As montras das lojas são desmascaradas. O rebuliço luminoso extingue-se. Permanecem os placards luminosos na sua sonolência invernil. Nunca reparo neles no Verão.
As luzes dos carros, os olhares cerrados. Os sobretudos escuros. O erotismo de um cachecol encobrindo o pescoço suado.

Às vezes tenho um pouco de medo. Não sei bem que pele é descascada no cerzir da escrita. Quanto a mim, a escrita cessou. Resta o Abismo. Assim dizia o HH no PHOTOMATON.

Entendo essa liturgia em que a escrita não é acto moral, adesivo individual da palavra solta. Torna-se um raspanço. A palavra é agoniante. Mas a escrita quando cessa é como o osso lavrado por medo, as cartilagens podadas pela caneta sublime. Nesse acto desfaz-se toda a moralidade porque é de dentro das trevas que emerge o léxico.

Por vezes sento-me solenemente para compor e escrevinho adendas a um corpo inexistente que vai tomando forma no mistério do cadafalso. Depois apago tudo e tento não pensar mais nisso.

Ouvir Nyman tem ajudado estupendamente a esse processo. Os concertos para piano são um Debussy écartés de la malaise de 14. Existem neles uma esperança barroca ausente do Claude-Achille. Ouvir a cathédral engloutie repetitivamente é provavelmente a experiência mais agoniante que se possa imaginar. Tal como na escrita, está-se diante de uma música que surge das sarjetas entupidas – vem de dentro e coloca-nos ainda mais dentro.

A existência, em toda a sua imagética irreplicável tende para uma desordem que só se presume ordenada porque se assume um sentido. Começa-se pelo fim, e atribui-se um sentido adequado ao acontecimento passado.

Entre essa ilusão comiseradora e a realização da falta de controlo sobre o destino da nossa próxima unidade temporal, restam alguns, escassos momentos, onde a criação se apropria adequadamente das mãos estéreis, e finalmente o sentido precede o acontecimento.

E aí o osso é descascado.

Wednesday, January 17, 2007

Influence without generating values

The exponential growth in the numbers of empiricists helps resolve another debate as old as that of the Greeks. Platonists are sympathetic to rule by experts and elites. Aristotelians are more receptive to democratic rule. Expertise in the form of empiricism straddles these two political poles. It is a more democratic expertise in that it is replicable, transparent, and sharable. Moreover, it is disciplined by the information inputs of blogs and information markets. Thus, expert judgments will no longer be those of the few wise persons who rely on authority to impress their conclusions on society. Instead, they will reflect the collective sentiments of the empirical community.
This kind of work demonstrates how empiricism can have influence without generating its own values. The values being assumed here are those implicit in the operations of the academic community itself.
Two other factors — themselves a product of our ongoing technological revolutions — will amplify the power of empiricism. One is the rise of blogs. Blogs help police and expose false studies with which interest groups and partisans may attempt to counter the empirical work that undermines the factual bases of their positions. Academic experts regularly write for blogs and, unlike reporters, are well suited to subject empirical work to searching scrutiny. Recently, for instance, a group of prominent legal scholars has begun a blog wholly devoted to law and empiricism. Such developments will also force empiricists to be more careful and transparent about the discretionary decisions they make, such as their choices of time periods to include in their investigations, because their colleagues will be able to call them to account for misjudgement or bias more easily.
The declining cost of empiricism also promises to transform our universities, because it provides greater incentives to hire empirical investigators in the social sciences. A hundred years ago, armchair speculation was very cheap compared to empiricism, as the cost of the latter enterprise was high, often prohibitively so, in that the available technology rarely delivered any useful results. Thus, it was rational for universities to hire theorists without much interest in comprehensive and statistical inquiry into the social world. But now that the cost of empiricism has fallen, a cascade of empiricists of all kinds — economists, psychologists, political scientists — is flowing into our universities and think tanks.

This inflow has several immediate effects, all of them beneficial to a free inquiry that will in turn aid the gathering of facts conducive to consensus politics. First, the hiring of empiricists will tend to decrease any ideological discrimination in academia, because empiricists, whatever their personal politics, will tend to be much more open-minded than their theoretically inclined colleagues. They respect facts themselves and professionally must give a hearing to other empiricists, whatever their views and whatever the results of their empirical investigations. They will also be less prone to discriminate, even in hiring theorists in their social science departments, because empiricists are likely to regard almost all theories as contestable.
Far more important to the future of America is the battle over substantive issues. Empiricism has already created a consensus in some areas, crime being one of the foremost among them. In the 1960s and 70s, the political community was much divided about the basic approach to crime. Some experts then attacked prison sentences as destructive rather than useful and even contended that certain criminal acts, like writing graffiti, should not be considered crimes at all.

But criminologists have turned to empiricism to show the truth of claims previously contested. It turns out that that prison sentences sharply reduce crime, as does the greater presence of police on the streets. Steve Levitt recognized that prison-overcrowding litigation created a natural experiment for testing the extent to which prison sentences reduced crime because the litigation released prisoners for reasons that had nothing to do with crime rates. By looking at the consequences of the prison litigation, he was able to show that for each criminal released from the prison population, the number of crimes will increase by about 15.

Monday, January 08, 2007

A Million Dollar Baby


A Million Dollar Baby é tanto um filme de boxe, como o Gone With the Wind é um filme sobre a guerra civil americana. Ou o Match Point, um filme sobre sorte. A Million Dollar Baby é um filme sobre esperança.

Espinosa definia a esperança com aquela objectividade decomposta em proposições tão peculiar. “A esperança nada mais é do que uma alegria inconstante que emerge da imagem de qualquer coisa, passada ou futura, sobre cujo o resultado temos algumas dúvidas.”

No filme, o confronto entre o elemento sem esperança – o treinador Franckie que foi abandonado pela família por uma razão desconhecida – e o elemento com esperança – a Maggy que sonha desde pequena em se tornar boxeur, e finalmente decide, aos 31 anos, executar esse sonho.

Ao longo da história, o Franckie absorve a força de Maggy, lida com os seus demónios, vai renascendo aos poucos. Basta uma pessoa ao nosso lado a lutar, que a luta já não parece assim tão difícil. O plural torna as coisas fáceis.

Maggy, pelo contrário, não tem de renascer; ela é a tal alegria inconstante, que se encontra a descobrir a tal imagem que idealizou, mas que nunca viveu – nem ao de longe. Ela nem sequer anseia pelo combate que vale a Million Dollars, porque o próprio processo de aguardar é suficiente para a preencher. Sim; quando se quer verdadeiramente algo, a própria tentativa quase se transforma num fim em si.

O maravilhoso Eddie Scrap junto os dois, porque é o único que viveu a ilusão, lutou por ela e falhou. Mas não perdeu a esperança no mundo à sua volta.

“… imagem de qualquer coisa, passada, ou futura, sobre cujo resultado temos algumas dúvidas.” Sempre achei estranho este preciosismo. Nunca pus em causa que o presente não entrasse na definição de esperança. Mas o passado quase que parece ali deslocado. Como é que o resultado de algo passado pode ser incerto? Já aconteceu. É definitivo.

Isso estaria correcto num mundo sem perdão nem arrependimento. A esperança que vem do passado é uma esperança de perdão. Franckie espera esse perdão. Anseia por ele. Toda a gente anseia por um perdão por algo estupidamente guardado nos confins do tempo. A esperança revela-se exactamente nesse acto de não aceitar que algo seja definitivo.

No fim, os papéis invertem-se. Maggy decide morrer, e é o treinador que a tenta convencer do contrário. Ela perde a esperança e isso é para ele insuportável. “ I can’t live like this boss. Not after I’ve seen all there is out there.”

Nada de resta para Maggy senão uma família insuportável que lhe quer tirar o dinheiro. Ela perde a esperança em viver, e perde a esperança em ter uma família decente. Não, na realidade ela passa a vê-los exactamente como eles são. Seres sem amor, egoístas, mesquinhos, desprezíveis. Presumo que esperança a mais contamine a visão das coisas adjacentes.

Million Dollar Baby é um filme sobre a esperança e a falta dela. E o que resta dela. No caso de Maggy, a definição de Espinosa falha só em assumir que ela tinha algumas dúvidas sobre o desfecho da sua jornada. Estou certo que ela sabia que não estava destinada a ser feliz; daí essa alegria insaciável em toda a porção de tempo que se aninhasse ao seu lado.

Friday, January 05, 2007

Algumas pérolas do Guns, Steel and Diamonds do Jared Diamond


É do conhecimento geral que a América do Sul foi colonizada pelos Espanhóis que criaram uma raça mestiça feita dos autóctones sobreviventes, dos escravos da costa Oeste Africana e mesmo algum sangue Europeu. Também se sabe que os Australianos originais eram os aborígenes, tendo sido colonizados pelos Britânicos.

O que não é evidente é que Madagáscar foi colonizada pelos indonésios Austroasiáticos por volta de 3000 AC. E que estes, por sua vez, já teriam sido colonizados pelos Asiáticos da costa Sul – colonizados por sua vez pela raça predominante chinesa do Norte. Sim, caso contrário, os indonésios seriam tão escuros quanto os autóctones da Nova Guiné.

Isto é tão surpreendente quanto Colombo chegar a Cuba a bordo da Santa Maria e aí encontrar uma colónia de suecos, como feições louras e uma língua de origem eslava. Sem vestígios de nenhum Índio.

As horas


A mesma estrada, percorrida à mesma hora divina; o mesmo sítio escondido no fundo dos vasos sanguíneos. Os locais perdurando como grandes blocos de aço esterilizado, imensas escarpas de sonhos vertidos.

Sim, os sítios e as horas, acotovelando-se na memória.

A mesma expressão inquieta; nada mudou em ti apesar do tempo. Continuas com as mãos apagadas sobre o xaile escuro; aguardas o cochichar dos cigarros mal apagados.

Aguarda e sente. Olha bem e vê a metafísica que não é. As migalhas são levadas e fica o vazio.

Les miètes s’endorment sur le vide. J’ais plus de foi ao poison.

O amanhecer sacode os membros; as mãos são eróticas na asfixia.

Este caminho que já fiz contigo num tempo em que os lábios ainda estremeciam. O caminho pela noite fria, a noite com o bolor das nuvens desprendendo-se; um dia deixei-te entrar e fiquei à tua porta até amanhecer.

Fiquei encostada à porta, com o silêncio derramando-se pelas frinchas. O frio lembra-me desse silêncio.

Acontece-me pensar no amor escrito em letras minúsculas, o amor deixado ao acaso num banco de jardim; ele ali está, como matéria casual de vozes roucas. E então sinto a rouquidão perfurando a atmosfera como um relâmpago.

A lama das palavras salpicando os corpos; sim, os sítios e as horas, esperneando uma coreografia imaterial.

Esse caminho, qualquer outro, o vazio, o vazio e as suas migalhas, é tudo um nada sufocante congregando os hálitos mornos das crianças a dormir. E assim sinto-me a boiar sobre o real.

Nunca consegui boiar no mar mas nadava debaixo de água com os olhos abertos.

As horas; o aconchego circular do ponteiro erecto. Os dias ficavam meigos quando sentia a tua clavícula entre os meus dedos. E o amor era um lastro, mesmo escrito devagar.

Diz-me devagar as coisas que anoitecem, ou diz-me silêncio desmembrado em copos cheios de gelo, ou não me digas nada. Dá-me um nada em letras minúsculas.

As horas; como se boiasse nos seus ponteiros adimensionais e sentisse a fundura da repetição. O mesmo caminho, repetindo-se, sem por isso ser diferente ou melhor.

Monday, December 25, 2006

Uma questão de escala

A dúvida. Esse elemento em forma de coisa que é perceptível na forma de uma sombra. A dúvida, tal como o desejo e os organismos dos aquários, tem geração espontânea. É uma lenha que arde invisível mas que deixa cinza. E a cinza cola-se aos dedos como melaço. É desagradável.

A dúvida é um exemplo claro de uma consequência descontínua de um processo contínuo. A soma parcelar das experiências esgota-se num enésimo termo qualquer, e o processo cessa. Na realidade é tremendamente curioso; é como encher um balde com água até um dado limite, até que essa água – liquido inerte por natureza – instabiliza e se transforma, por exemplo, em café. Ou num esquilo. Ou numa máquina de cortar fiambre.

No entanto, o princípio subjacente a esse evento extraordinário é na realidade banal. É um princípio simples que diz que o nível de desorganização do universo apenas tende a aumentar. E a essa matéria que não o é chama-se entropia. No fundo exprime a realidade aleatória da matéria e a magnificência do caos.

A ideia que pequenas alterações podem gerar mudanças incalculáveis é bastante intuitiva. Basta pensar em qualquer acontecimento e tentar encontrar as causas; depressa se é obrigado a assumir que existem acontecimentos que não têm nenhuma causa próxima detectável, pelo que existem, para cada acontecimento, consequências também indetectáveis. Mesmo sendo verdade que existam coisas sem qualquer aleatoriadade aparente, tal não significa que as suas causas sejam detectáveis.

Funções continuas, cumulativas que originam um magna de confusão e de catástrofe. A ideia é inquietante. Mas obviamente que só não se aplica às catástrofes que já se previam que fossem acontecer. E essas são na forma de uma lânguida superfície oval designada por zero.

A dúvida poderia inquietar ainda mais o sistema se, ela por ela, fosse absoluta, e condenasse à improbabilidade a análise de qualquer sistema de variáveis aleatórias. Mas essa proposição, em si, também não seria válida. Para mais, prever que não se pode prever é uma afirmação muito auto negatória.

Para mim, entendo bem que não existam dúvidas. Aceito que os sistemas instabilizam, que a água se possa transformar num esquilo, que os aviões caiam, ou que as pessoas se apaixonem. É natural que o acumular de coisas que se pensam e se sentem torne o sistema humano em matéria volátil de actos imprevisíveis. A desorganização não é natural; mas a instabilização é – chamá-la desorganizada é uma interpretação nossa.
Ás vezes, coisas que se sentiam como rochas inamovíveis começam a perder a forma, a perspectiva e até a substância. A certeza esvanece-se. Não se vê uma pedra, mas um sapo a fumar cachimbo. É natural que assim seja. A certeza é um tremendo descanso mental; com tantos elementos incontroláveis é um conforto indispensável reduzir ao máximo os graus de liberdade.

Sim, entre perturbações do sistema, entre transições de estado, existe uma inércia muito humana. A inércia que aconchega um mundo arrumado. Essa inércia é a dúvida per si. Mas curiosamente a dúvida é sempre uma questão de escala. Com o tempo ela dilui-se, mesmo que não surjam dados novos. O que é natural – porque ela não existe.
A dúvida é o acto de não-aceitação de uma nova realidade. A dúvida é interior e não matéria palpável que se organize exteriormente. A dúvida somos nós. Ou que, infelizmente, nos equipara a organismos que habitam aquários. Ou planetas.

Friday, December 08, 2006

Vegetação

A noite por cá é percorrida por uma sumptuosa gritaria de aves entre a floresta virgem. Tens estado uma lua cheia que ilumina uma noite nunca silenciosa; a floresta ondula sob o planalto do luar e a noite densa de arrepios emerge. E depois surge um silêncio fátuo que adormece em sossego.

Quase que sinto as bolhas de ar do tempo a dissolverem-se como um alka-setzer; mais parece uma sinfonia de grilos indispostos.

Á frente da praia há uma montanha mascarada de nuvens que apenas deixam percepcionar a base e o topo. O cume parece o de um vulcão imponente, um ancião adormecido na sua colcha de fosfato. Mas são montanhas mortas estas; cumes desgastados pela crepitação do tempo. O tempo dissolvendo-se como um alka-setzer.

A areia é falsa. Não é de cá. Montanhas com floresta virgem e areia junto ao oceano é um acaso geológico. As árvores não crescem em rocha, e a areia não vem da terra. Acho que prefiro a Cordoama.

Não que aprecie a aridez, mas esta incandescência de vegetação, verde a crescer do mais infímo micro-poro de terra ou de rocha, esta abundância de vida... Confesso que me é um pouco aflitiva por alguma intíma razão que desconheço.

Monday, November 27, 2006

Composição de homem mais tocha

Ele ali estava; suor fétido nas formas, o rancor nos lábios. De novo. Lembro-me de ser criança e ter encontrado um homem deitado na calçada, o corpo achatado sobre os jornais húmidos e um coto soberbo bem erguido como uma tocha.

Nunca tinha visto um amputado; o meu olhar ficou gazeado sobre o membro ausente, o espaço de um braço que não existia. O meu passo estacou e fui puxado com força por alguém que me levava pela mão.

Passei horas e dias com a visão do vagabundo amputado na minha cabeça. O cheiro. O cheiro acompanhou-me meses. Aquele cheiro a sujidade húmida. A cara com uma barba manchada de amarelo-torrado e o olhar destruído sobre as pessoas. Essa cara nunca a esqueci.

Acho que na minha cabeça tinha a ilusão que os membros voltavam a crescer. Ou que se compravam membros novos. Ou que se morria. Sim; devia achar que sem um membro qualquer era morte certa.
Encontrei-o de novo no outro dia. No meio da calçada, aninhado para o lado da estrada, com o mesmo olhar diluído, o coto pendurado sobre as costelas salientes. Abrandei o passo e os nossos olhares confluíram. Sobre mim, aquele olhar impiedoso; um olhar vazio de vida.

Havia este homem que dormitava sobre a calçada; e que não interpelava ninguém, não pedia nada. Não esperava nada. De repente, aquele olhar não parecia tão ameaçador. Parecia um olhar de criança. Um olhar parado sobre um pequeno espaço; talvez sobre um pedaço de infância com sabor a algodão doce e a correrias pela rua.

O homem sem roupas decentes, sem sapatos, e sem um braço. Um olhar feito de não desejo, de não vida. Um olhar sem esperança. Nunca tinha visto um olhar sem esperança alguma.

Ao olhá-lo altivamente pelos meus óculos escuros e percebi sem qualquer desvio de certeza; habitar a vida sem esperança é a pior enfermidade que alguém pode padecer.

Thursday, November 09, 2006

Algumas considerações prácticas sobre o sorrir

O que parece é.

Os pés bem no fundo da areia


Conheci-o por mero acaso. Por interposta pessoa. Aqui há algum tempo. Já na altura as formas débeis saltavam à vista. A magreza do corpo, a lividez dos gestos, a estreiteza das palavras. As olheiras sufocando o olhar radioso enquanto ouvia muito atento. Ele não acenava com a cabeça; cerrava os olhos como se tentasse ver melhor e emanava um pois qualquer. Pois. Era perturbante.
Aquele jeito de ser era como uma boca expectante para engolir silêncio. Uma boca de lábios rochosos. Não gostei dele ao princípio; metia-me medo.


Depois houve um dia que me pegou na mão com quem segura um beijo e disse me com a voz molhada, acho que nunca conheci um acto de beleza tão único como tu. Disse-me assim como se pede um copo de água ou se pede licença. Acto de beleza. Bem, decididamente sabes arrebatar uma rapariga, e ele riu-se com aquele jeito amargurado.

Acho que no fundo já tinha percebido; é suposto uma mulher perceber estas coisas. A forma como ele olhava, ou então como olhava em redor. A forma como olhava, sem nunca parecer procurar; como se entre nós houvesse uma cortina impressionista que deformasse os corpos. Era perturbante.

Durante algum tempo ele apeteceu-me como apetece sentir os pés enterrarem-se na areia molhada e continuar ali, os pés cada vez mais fundos na terra do mar, cada vez mais juntos, o corpo como uma haste de uma flor descarnada. Ficar ali diante de uma imensidão que não se pode tocar mas que se sente. E fiquei; arremessada sobre o meu acto de beleza. Único.

Acho que sabia que não podia ser só a metade. Porque o que sentia era apenas uma metade. Uma metade sôfrega de se destruir aos pedaços. Pensei que aquela estreiteza na voz e magreza no corpo viessem de fora; e estava apaixonada pelo acto que era acolhê-lo. Mas não vinha. Perguntava-lhe, mas não estás feliz, e ele fechava os olhos com força e ria-se. Como se o feliz se esgotasse em te ter. E eu fechava os olhos e deixava as palavras amarrotarem-se no escuro. Ele achava que eu era dele.

Acho que até achava atraente essa ideia da posse e do sofrimento per si. Um sofrimento só de se ser. Em nome do resto do mundo. Em meu nome. Acho que invejava isso. Não sentia a figura marchando pelo mato, mas ouvia o crepitar da caruma; não sentia as sombras adormecidas nos pinhais, mas via as folhas a remexerem-se no escuro.

Depois houve um dia em que deixei de suportar as costelas aguçadas e o olhar poeirento. Ele estava adormecido no meu colo como gostava de fazer e eu só sentia agulhas a riscarem-me o corpo. Tinha os pés frios, e adormecidos debaixo de terra. Tinha de partir porque o oceano estava gelado.

Mais tarde acho que percebi. Acho que ele simplesmente se tinha apaixonado pela própria ideia que tinha de si; e essa gravidade quase que me engoliu aos pedaços. Encontrei-o no outro dia; estava mais gordo. Tinha um ar tranquilo. Lembrei-me do que dizia a minha mãe, tens de o agarrar pela barriga, os homens agarram-se pela barriga.

Jantar na mesa e roupa lavada. Não há metafísica que o valha. Talvez tenha razão.

Wednesday, November 08, 2006

Alguns considerações práticas sobre a preocupação


Só deve ser objecto de preocupação a matéria que, directa ou indirectamente, seja passível de alteração significativa por parte do sujeito.

Caso não seja, não é preocupação: é comiseração.

Friday, October 20, 2006

Eternidade ao amanhecer




Não tínhamos culpa porque o dia se abria diante nós como uma goela súbita
E todos os pedaços de terra levitavam
A argila das sombras envolvendo as planícies de corpos
E todos os pedaços de mar explodiam
A espuma urdindo poros sobre as falésias despidas
E todos os pedaços fogo irrompiam
As chamas doces fulminando céus e galáxias gélidas
E todos os pedaços de amor se soltavam
Porque não tínhamos de culpa de sermos assim culpados
Assim sem dia ou noite, ou tempo algum,
Engolidos nesse embaraço breve de sermos eternos
Em cada amanhecer.

Quote

“No society, no matter how tolerant, can expect to thrive if its citizens don't prize what their citizenship means.”

Salman Rushdie

Wednesday, October 18, 2006

Os Sacos

A luz que entrava pela casa era asfixiante; nunca consegui adormecer com uma luz daquelas. A luz era uma luz de espera. Aguarda a tua vez, agarra o silêncio com os lábios, não te cortes. Não conseguia ficar ali.

A inquietude. Saí. Tinha de sair. Com uma luz destas o céu encontra-se queimado; tem as nuvens meio sonolentas a expandirem-se como uma mancha de tinta. Quando era novo lembro-me do meu pai na sua secretária com as mangas em tecido a cobrir os punhos por causa dos borrões; cheiravam ao verniz das unhas das mulheres. Eu gostava do cheiro; gostava do cheiro a asfixia.

Antes de a minha mulher ficar doente arranjava as unhas todas as semanas. E ia ao calista. Acho que tinha mais cuidado com as mãos do que com o cabelo. Quando discutíamos elogiava-lhe o cabelo que era muito fino e castanho. Sabes muito bem que não faço nada de especial. E ficava com a certeza que não precisava de fazer nada de especial porque tinha o cabelo bonito porque era muito fino e castanho. Tens a certeza que não preferias que o pintasse; e eu dizia claro que sim e ela sorria irritada.

Não consigo ficar quieto a absorver esta luz estéril. Esta luz que mata. Por vezes a inquietude toma conta de mim como uma expressão ínfima de terror. Caminhava pela rua e imaginava-a a chamar por mim. Não a devia ter deixado sozinha. Uma das coisas boas da idade é que a inquietude pode ser entendida como senilidade. Está velho, não sabe o que faz. Claro que sei. Os homens avariam-se, e as mulheres também. Não quer dizer que se estraguem.
Caminhei longuíssimas horas. Uma ou duas. Ou mais. Acho que não sabia o que queria. Quando não sei o que quero ponho-me a andar pelas ruas. Cria-me a ilusão que me dirijo para algum lado; algum lado definido. Mas não caminho para nenhum sítio em particular. Passo pelo barbeiro, sento-me no café, compro uma fruta. Agora já sei porquê que os velhos andam sempre com um saco e o cabelo bem aparado. Nunca vi um velho com o cabelo comprido. Os sacos contêm a melancolia de ter tempo; contêm uma razão para sair de casa.

Eu ainda não ando de sacos. Os velhos que andam de saco sempre me intrigaram. Agora faço questão de não andar de sacos porque já sei a razão. A razão é a demonstração aos outros velhos da sua habilidade em viver por eles, sem ajuda, com toda a independência. Os velhos dos lares não usam sacos. Os outros velhos passam as manhãs e as tardes a competir com o lustre e volume dos sacos que transportam. Trazem nos sacos um quilo de farinha para fazer pastéis, quatro maçãs para a sobremesa, um infinito de desesperança, e a ilusão da actividade.
Esta luz mata-se a ela própria. E mata tudo à volta. Eu dou grandes caminhadas quando não sei o que quero mas eu sei o que quero. Quero convencer-me que ainda sou capaz de andar sozinho pela cidade e que não tenho uma mulher doente em casa. E quero culpar a luz se possível. Ou doutor, doem-me as costas, é esta luz que anda para aí, há que ter cuidado, vai ter de tomar estas gotas.
Gotas, remédios, comprimidos. Os sacos das farmácias são demasiado pequenos para engrandecerem alguém.

Quando o meu pai morreu todos me diziam, o teu pai morreu com uma grande dignidade. Sim uma grande dignidade e um grande cancro no estômago. Mas hoje há remédios, e tratamentos e gotas. Hoje já não se consegue morrer com dignidade. Hoje morre-se quando se desiste.
Ela nesse dia de manhã tinha-me perguntado, gostas de mim. Eu percebi que ali alguma coisa estava mal porque ela nunca me tinha perguntado isso. Gosto de ti como da primeira vez que te vi. Mas na primeira vez que me viste eras casado com outra. Ela sorriu irritada, e eu sorri por antecipação. Mas gostava dela e falava a verdade. Queria pedir-te um favor. Segurou-me a mão A mão com unhas desarranjadas e manchas furibundas. Queria que me deixasses sozinha esta tarde por umas horas, preciso de falar com um velho amigo. Algumas décadas de coabitação ensinaram-me a não discutir. Assenti.

Uma mulher se quiser engana sempre um homem. Quando cheguei a casa já a tinham levado. Acho que me tinha demorado mais do que pensava.

Friday, October 06, 2006

A sagração da primavera

A sagração da primavera de Stravinsky é reconhecida como o marco primordial da subjugação da melodia ao ritmo. Este ballet em dois actos encomendado por Diaghilev e estreado em 1913, desvendou um novo mundo à música com a sua sumptuosidade rítmica, repleta de dissonâncias ferozes entre momentos de celebração extrema e o cansaço moribundo do sacrifício.
A sagração para além de servir de farol para as obras seguintes, é majestosa e imponente. A orquestração necessária é colossal e gerou espanto absoluto na época. Para a executar são necessários mais vinte instrumentos do que numa orquestra normal, a maior parte dos quais são instrumentos de sopro, dos quais oito são trompas; a orquestração é talvez apenas comparável à 2ª Sinfonia de Malher (a ressurreição) que exige dez trompas e que foi executada este ano nos proms.
Esta prevalência dos metais torna a música incisiva e saliente, mesmo nos andamentos mais harmónicos; por vezes apenas uma distonia melódica de cordas é audível, mas contendo sempre harmonias sobrepostas, alternando-se, completando-se, até ao limite de uma fuga atonal.
A sagração evoca uma festa pagã contendo rituais primitivos; a celebração dentro do contexto ecuménico desaparece e com ela a ritualidade da melodia celestial. A sagração não possui nada de celestial; é mesmo a última coisa que se pode esperar ouvir dentro de qualquer contexto religioso; o único episódio religioso digno da sagração é o dia do juízo final. Ou a fantasia da Disney, que utilizou trechos da obra.
A sagração insere-se num contexto de distorção e exagero. Ao mesmo tempo o movimento surrealista expande o legado impressionista, violentando a geometria e as regras espaciais. Les Demoiselles d’Avignon é pintado em 1907 e o cubismo surge como um frémito há muito receado. Stravinsky e Picasso conheceram-se aliás em 1917; um ano mais tarde Picasso casa-se com uma bailarina dos ballets russes, a mesma companhia que encomendara a sagração.
É um admirável mundo novo que se apresenta; tudo o que se encontrava definido e assimilado desmorona-se. A pintura, a música, a política, a física (Einstein ganha o prémio Nobel em 1920). Tudo ao som de Stravinsky e Debussy. E imagino que a história chegou a fim com a tecnologia sinfónica disponível.
Passado trinta anos, a invenção da guitarra eléctrica criaria um novo paradigma. E mais tarde os samplers, um outro diferente; Mas numa escala obtusamente mais diminuta. A história da música terá terminado por volta de 1913.

Monday, October 02, 2006

Cheguei



Passei horas e horas de chuva estrafegante meditando. Meditava num silêncio luminoso, e meditava actos. Os meus actos. Sabia que tinha um pulmão parado; e meditava sobre corpos cobertos de poeira e sentia as mãos molhadas com a cal do pensamento.
De uma forma suficientemente estranha para parecer natural, sentia que os próximos actos iam decidir muito mais que a própria carga natural que o agir comporta. E tinha essa sensação com a chuva a escorrer-me pela cara estanque. Decidir, critério de decisão, árvore de decisão, hemorragia de decisão. Há dessas alturas; uma altura sôfrega e imediata de decisão. A respiração suspensa, o pulmão parado, as mãos molhadas. E a chuva rufando como tropas marchando aguadas.
Silêncio na audiência em mim. O jogador russo segura o cavalo na mão; a jogada poderá ser determinante. E o jogador russo engole a peça e arrota uma libra de ouro.
Estive quase a ceder. Saber o que o destino importa sem ser no haraquiri. Não; pôr o sabre de lado, e meditar. E assim meditei.
Concluí, como o Lobo Antunes, que o mundo foi feito ao contrário. Feito do fim; e é pelo fim que se deve começar. Para onde se quer chegar. É como os labirintos; os labirintos são incrivelmente mais simples se se começar pela saída. É assim que se faz, está nos livros.
Começar pelo fim tem a grande vantagem de permitir a instauração de uma imagética infra-racional. No momento anterior à decisão, ao acto racional de deliberadamente excluir um caminho – sim, se fosse possível escolhia-se os dois e não nenhum, o que, apesar de tudo, também é curioso – encena-se, não o percurso, mas o momento final. Simples e trivial e constante
O caminho deve ser tapado; deve-se colocar uma manta sobre ele. Não se deve ver o caminho. Sim, o conflito não surge da tomada de decisão. Surge da acção que daí advém; do caminho a percorrer. Quase sempre.
O mundo começou pelo fim, e daí chegou a um princípio de uma forma impensável. Foi isso que fiz. Foi só seguir as setas.
Cheguei.

Sunday, September 03, 2006

Um sem o outro



A forma como dizes que sim; e que não. E a forma como dizes as duas ao mesmo tempo. Em simultâneo para ser correcto. E eu digo que talvez, mas talvez queira dizer o mesmo que tu. E em conjunto não dizemos nada, os lábios presos nesse nada adocicado, e as peles cozidas sobre o silêncio.

Não, porque sim, essa proposição sórdida; mas depois mexes no cabelo e ajeitas o sorriso com o olhar. Talvez, e eu digo, porquê, mas já o silêncio jorra entre os nossos corpos rarefeitos, um do outro. E nós nunca seremos nem um nem outro, mas um apetite de nos tornarmos únicos, como um copo de vinho espalmado sobre o deserto impávido.

Sim, nós somos algo de estranho, Principalmente, um sem o outro. Resta o adagieto de Malher ao fundo. E tudo volta a fazer sentido.