Thursday, April 26, 2007

Gestos

Somos esses gestos pálidos segurando uma espécie de nada
Que conflui na expectativa da ausência;
Os gestos vertidos,
E os gestos sedosos,
Gestos sem intento, ou causa, ou expectativa.
Somos todos esses gestos amarrotados
Feitos do deslizar das mãos em basaltos mornos
Onde os corpos se estendem, infinitos.
Por vezes, é possível diagnosticar um sorriso,
Uma labareda latejando sobre esta espécie de asfixia
Que se forma em redor das bocas,
Como a lembrança súbita de um sonho inútil.
Somos gestos, esses gestos e apenas esses,
Insinuando-se por entre golfadas desorientadas
De ar estaladiço.
Um moroso trepidar de tempo em que
As mãos vagueiam estéreis sobre o cabelo molhado,
E os olhos se fecham, ínfimos.

Wednesday, April 04, 2007

Luz despida de electrões




A estrada quente, deflagrando géisers de ar amarrotado,
A quentura impossível sobre os gestos adormecidos,
A estrada inteira, indefinida – uma luz abstracta, maternal.
Um esboço pardo de tempo sincronizando as mãos sobre a areia
Rouca,
Luz despida de electrões, confinante sobre a parede da boca,
As bocas dispersas povoando uma latitude avulsa – movediça como vinho
Decantado no barro.
Sentir o marulhar da fotossíntese em lábios
Tão inquietos como planetas despidos de matéria e divindades.
Aqui, como astros anões,
Acordando em tépida asfixia – alimentando-me desta morosidade que desagua
Da noite.
Mas logo os flocos de chuva morna orvalham e
Pode-se desatar a viver.
Desatar a viver como um eclipse apaixonado por um Sol,
Ou um Sol cercando uma planeta – mas ao ver-te,
Ver hipotéticos sorrisos adivinhando-se entre o sal da tua boca,
E a luz condensando-se pela pele como um reboco,
Ver-te assim – faz-me apenas querer não me mexer e ficar
Quieto sobre essa doçura d
emasiada óbvia.

Monday, March 19, 2007

Magnolia


1 Then the LORD said to Moses, “Go to Pharaoh and say to him, ‘Thus says the LORD, “Let My people go, that they may serve Me. 2 “But if you refuse to let them go, behold, I will smite your whole territory with frogs. 3 “The Nile will swarm with frogs, which will come up and go into your house and into your bedroom and on your bed, and into the houses of your servants and on your people, and into your ovens and into your kneading bowls. 4 “So the frogs will come up on you and your people and all your servants.”’” 5 Then the LORD said to Moses, “Say to Aaron, ‘Stretch out your hand with your staff over the rivers, over the streams and over the pools, and make frogs come up on the land of Egypt.’” 6 So Aaron stretched out his hand over the waters of Egypt, and the frogs came up and covered the land of Egypt. 7 The magicians did the same with their secret arts, making frogs come up on the land of Egypt.

Mangnolia, ao contrário de One Million Dollar Baby, é um filme sobre a falta de esperança; a falta de esperança numa das suas formas mais monolíticas e definitivas que é o arrependimento. Subsiste sempre a esperança do perdão. Mas estes personagens que habitam o Magnólia estão muito para além do perdão; a percepção da sua finitude e o peso da culpa necessitam de um tipo de perdão superior – uma redenção que é muito mais alcançável pelo não perdão e pela continuação da dor decorrente da doença que têm.


Earl Patridge e Jimmy Gator são os centros amorais da história. Um abandonou a mulher quando esta adoeceu, obrigando o filho de 14 anos a tomar conta dela. O outro abusou sexualmente da filha. Ambos exprimem um amor sombrio pelas mulheres; um amor marcado pela distância, pelo desprezo e pela traição. Mais do que procurarem o perdão dos filhos, procuram uma absolvição superior. Por isso sentem-se confortáveis com a sua dor. Exibem a sua doença como contra-peso de toda a dor que provocaram.


Mas não os únicos latejados pelo arrependimento. A filha de Jimmy Gator, Cláudia seguiu um caminho de abusos após fugir de casa, marcado pela droga e pela prostituição. A mulher de Earl, Linda (uma sublime Julianne Moore), casou-se por dinheiro, e é uma infiel compulsiva.
Há poucas vítimas no filme: Frank T.J. Mackey, Donnie Smith, e Stanley Spector são vítimas. O primeiro é o filho abandonado de Earl e agora um misógino profissional. Donnie e Stanley são o antes e depois. Ambos concorrentes vencedores do concurso apresentado por Jimmy Gator e produzido por Earl Patridge, são abusados pelos pais que se aproveitaram e se tentam aproveitar do sucesso dos seus filhos.


Na realidade, todos os filhos são de alguma forma vítimas e cada um reage à sua maneira. Uns arranjam desculpa para perder e se deixarem corromper (Donnie Smith) e Claudia, outros arranjam desculpa para ganhar e terem sucesso (Frank T.J. Mackey).


Existe um desarmante centro moral da história. O polícia Jim Kuring (um genial John C. Reilly) acorda de manhã, faz exercício, realiza as suas orações e fala sozinho no carro com Deus. Refila com quem diz palavrões, e fala a toda a gente como se fossem crianças. Jim sofre de um tipo especial de falta de esperança: a ausência de amor. Jim, como Donnie não são pecadores; seguem as suas vidas minúsculas num corredor preto e branco, sem capacidade para apreender a ambiguidade do desbotado, do cinzento fisco – e não são recompensados pela sua pureza. Antes pelo contrário, todos os elementos amorais da história têm sucesso – ou se são vítimas, como Frank T.J. Mackey, alcançam o sucesso através da mentira, do encobrimento, da falsidade. A única moral prevalente é que é imoral não ter sucesso.


No fim do filme, o nosso anti-herói Jim Kuring elabora um discurso sobre a lei e a ordem; discorre sobre a dificuldade em julgar e aplicar a lei. O cerne do discurso é perdão. O quê que podemos perdoar? O quê que não podemos deixar passar? Pela primeira vez, Jim aproxima-se se um domínio descolorido, sem contraste.
O quê que se pode perdoar? Qual é o domínio das acções passíveis de perdão e aquelas exclusivas do castigo.


Este arrependimento que divaga pelo filme é um arrependimento muito próprio e desprovido de esperança. Não só o perdão não é suficiente, como o castigo não é uma pena – antes algo porque se anseia. Em a Million Dollar Baby tem-se o contra-ponto exacto. Maggy não pretende julgar, nem pretende impor qualquer moral. Ela quer realizar os seus sonhos. E realiza-os sem magoar ninguém.


Não existem sonhos no Magnólia, apenas insidiosas e purulentas recriminações sem fim pelo sucesso ter sido alcançado pela falsidade e pela dor, ou por não se ter alcançado sucesso algum. Emana dele toda uma moralidade muito cristã que afirma que ninguém está desprovido de pecado, a não ser os imbecis rectilíneos. Não existem Maggys. Mas tem sapos.

Monday, March 12, 2007

Shumi


Faz por agora três anos. Três anos sem aquele sorriso de aceitação e compreensão profunda. Três anos sem aquele sorriso maravilhoso. Passei horas e hora intermináveis com ele, e sempre que ele me surge na memória, encontra-o com aquele sorriso doce. Há três anos que tento escrever uma linha sobre esse sorriso e não consigo.
Parecia que nele, existia a íntima percepção da alegria que todas as pequenas coisas poderiam conter; não era uma alegria feita de restos. Era uma alegria densa, feita de todos os pedaços aderentes à vida; daquelas alegrias só ao alcance de quem passou pelo eclipse da esperança na vida, ajoelhou-se na berma da estrada, ponderou ficar por lá – observando cadáveres de sonhos serem arrastados, pedaços de ilusões desmembrados como arame cortado – e voltou a erguer-se.
Agarrar a sombra gasta, fixar o fundo escuro da ruela íngreme e prosseguir, sem dúvida aparente, ou hesitação latente – o ar sério e concentrado quase lhe ficavam estranhos (assim como uma roupa apertada). Não era difícil ver que alguma coisa estava mal; o sorriso perdia substância e o olhar condensava-se em coisa sem brilho. Não; é ridículo imaginar que algum de nós sabia o que se passava. Ninguém fazia ideia. E também não era concebível que o soubéssemos. Ou era? Evito a pergunta muito frequentemente. E vejo-o a fechar os olhos, incomodado pelo próprio fumo do seu cigarro.
Algumas pessoas passam, durante algum tempo, por certas experiências que, pela sua natureza, afectam todos e afectam com força. E só há duas formas distintas das pessoas serem afectadas: ou se afastam ou ficam juntas. Algumas afastam-se; e é muito fácil fazê-lo. Não partilhar as coisas não as faz desaparecer, mas ajuda. Outras ficam juntas. Ficam mais juntas; irmanizam-se. Estou a vê-lo a agarrar a pele da barriga e a esticá-la com força, a rir, rir, rir… Gargalhas roubadas ao receio permanente.
Há outras ainda que possuem um poder extraordinário que é o de obrigar as outras a juntarem-se por ele. Não que as obrigue, ou faça referência, sequer de forma indirecta. Algumas pessoas possuem uma alegria e uma inocência tão próprias, exibem de forma tão nua tanto as suas fraquezas como a sua grandiosidade, que simplesmente é impossível não as seguir. O João era uma dessas pessoas.
Revi o Seven há pouco tempo. O filme termina com aquela frase célebre. “O mundo é um bom lugar, e merece que se lute ele; eu concordo com segunda parte”. Eu também.

Friday, March 09, 2007

As mãos e os vidros



Mãos abertas, vidros manchados. O cheiro à tinta agora colocada e a noite que amorna a pele sugada ao tempo. Houvesse nesse tempo matéria tão mais suave que o desta voz que sara a alma fria; mãos abertas e quentes, vidros manchados e baços. Somos rascunhos inacabados de um nada permanente. Matéria de geometria rectilínea que alimenta todos os gestos incertos. Mãos abertas, esfoladas sobre o feltro do vidro. O cabelo quente; o cabelo mais quente que aniquila a miopia toda. Houvesse mais miopia e assim sentisse mais calor pelo cabelo todo. As mãos manchadas sobre o vidro.

Friday, February 23, 2007

Sin (Ai + X)

A sinusóide por aqui perdida, meio lombriga, meio conjunto de agrafes em magnética consolidação. A sinusóide que é analítica na forma, mas sem equação de movimento. Nunca como agora entendi aquela teimosia aguerrida em devorar o Crime e Castigo; e devorar vodka requentado pela manhã.
Em tempos criei uma escala que media a melancolia. A palavra só de si é tão bonita que merecia um aparelho de medição: era o melancoliómetro. Arrumei-o a semana passada; o mercúrio das suas veias tinha congelado.
A sinusóide é pior que um parasita. O parasita ao menos precisa de um hospedeiro – e alimenta-se dele a níveis que o permita sobreviver. A sinusóide não; a sinusóide é o próprio hospedeiro na sua duplicidade de molusco. Eu sou eu mais a minha sinusóide voluptuosa.
Há pessoas que não sabem fazer sinusóides; não é o meu caso. Conheço o Seno desde miúdo. Desde sempre que o senti como o trilho triturado, o mecanismo de sequência dos gestos – os gestos arrepiados ao instante.
Se a melancolia fosse uma distribuição estatística era a uniforme. Uma variável aleatória ponderada, constante, líquida. Entre ela e esta sinusóide radioactiva, um vazio sensitivo desmerecido.

Friday, February 09, 2007

Montparnasse



A luz põe-se doce sobre o horizonte e reconforta o cinzento empalidecido que transborda pelas ruas. O cinzento que esborrata a calçada é agora melancólico e empedernido – muito contrastante com a euforia que preenchera a alma em Agosto. Os homens que partiram no Verão da estação de Montparnasse com sorrisos garbosos e poses convictas divagavam agora sorumbáticos nos interiores dos cafés mais baratos; aí o absinto era vertido pelas goelas secas pelo pó e pela verdade.

A luz que se põe já não alumia olhos ardentes e espumosos; os olhares pouco se cruzam e poucas palavras são trocadas; os homens descansam a um canto de jardim com sacos de papel encamisando o vinho jubilante; os homens bebem e a luz põe-se enquanto os corpos secam na margem do Somme.

O capitão António Simão ganhara o posto na tomada do arsenal do Alfeite às forças leais ao Rei; fora aí que perdera vista esquerda. Conta quem lá esteve que o capitão marchou 70 metros com o estilhaço saliente na cavidade ocular, sem que mais nenhum projéctil o atingisse até uma posição forte com sete praças e um sargento. Estes, impressionados com a valentia do capitão – e com a sua figura deformada – deixaram cair as armas e renderam-se. O capitão usava desde então uma pala que lhe ocultava a vista trucidada e lhe exponha a cegueira a metade. Quiseram colocá-lo na reserva, até porque a vista atingida era a do olho director. Mas o capitão manteve-se irredutível, e foi com agrado que ouviu notícia que um corpo expedicionário partiria para a Flandres.

Guerra na Europa, uma grande guerra. Esta ainda era uma geração de ideais, que habitou um tempo feito de revoluções, reis depostos, e tratados selados com a honra. Eram homens de bigodes recortados, caras escanhoadas, belíssimos uniformes e uma colónia intensa. Mas esta guerra tinha sido diferente das outras; tinha sido uma guerra sem heróis. Alguém dizia no Herald Tribune: o único herói desta guerra é o soldado desconhecido.

A visão da chegada do corpo expedicionário português a Santa Apolónia foi das mais tristes que o país vivera. Os pais aguardavam os filhos ausentes, as noivas os homens perdidos, e alguns filhos tentavam espreitar por entre as plissas das saias. Os poucos que foram devolvidos com vida apresentavam-se estropiados, com a respiração arfante devido ao gás, a cara lívida e todos eles, sem excepção, caminhavam com o olhar fixo sobre o chão.

Aos pais que encontravam filhos com vida, logo dezenas se quedavam num soluçar imenso. Mas os homens não queriam as suas famílias; queriam ficar entre eles, entre a sua terrífica normalidade, junto de um cheiro e uma linguagem que conheciam. O país vira-se ceifado da sua juventude e implorava agora perdão aos que regressaram.

O capitão António Simão não tinha ninguém à sua espera. Passou de forma abrupta por todos, escusou-se a falar ao general Sousa Pais que estava presente da recepção. Desapareceu. Enquanto as famílias rodeavam os sobreviventes com graças a Deus, e a fanfarra tentava alegrar as hostes, os homens iam perguntando com preocupação, Onde está o meu Capitão.

Conseguiste ficar com o outro olho? Foi com a sua doçura natural que Teresa recebeu o Capitão. Não tens nada que se beba nesta casa. Serve-te à vontade, mas olha que o Afonso deve estar aí a chegar. O capitão sentou-se na sala com uma jarra de brandy ao seu lado. Ficou a olhar para Teresa. Verificou a sua arma no coldre. Aquela guerra ainda ia reclamar mais um corpo. António, não sei o que é que pensas que vens cá fazer. O capitão esvaziou o copo e serviu-se de outro. Tirou a arma e apontou para a foto de casamento de Teresa e Afonso. Suspirou um bang. Venho dar os meus parabéns ao meu querido amigo pelo seu recente casamento. Teresa sentou-se à sua frente, a expressão inquieta, o olhar molhado. Aquele homem estava ali para matar, não lhe custar nada – era isso que ele fazia da vida. Ela não ia conseguir demovê-lo.

António, o Afonso é uma criança. E os duelos já não são permitidos. O Capitão lançou uma gargalhada que terminou de súbito. Quase se engasgou. Mademoiselle, mas quem é que falou em duelo? O teu querido Afonso vai apanhar dois balázios mal entre por aquela porta e não penses sequer em te levantar daí para o ir avisar.

Afonso abriu a porta com despreocupação e ainda avistou o olhar imóvel de Teresa antes de encarar o corpo do Capitão António Simão estendido no chão, ainda vivo, com a garganta aberta. Á sua frente, esvaía-se em sangue o único herói português da Grande Guerra.

Friday, January 26, 2007

Um pequeno (e raro, raríssimo) comentário político


As últimas eleições autárquicas foram marcadas pelo conflito entre as impolutas direcções partidárias e as ímpias hordas de líderes regionais renegados. Dessa forma, o Major Valentão, Isaltino UBS, a Luso-Brasileira Fátima, e Dr. Diácono Avelino Torres ergueram a espada e a voz contra o boicote do aparelho. E ganharam. Quase todos.

Em Lisboa, pelo contrário, os dois maiores partidos juntaram-se num grande bloco central contra Santana Lopes. O PSD não o apoiando para uma recandidatura e o PS comprometendo-se a escolher um candidato desconhecido, vindo das bases, com pouco mais da quarta classe. O senhor escolhido foi o Zé Maria – eminente especialista galináceo, vencedor da 1ª edição do Grande Irmão, actual naturalista urbano. No entanto, logo emergiu a hipótese de uma grande coligação de esquerda emergir sob o julgo dessa notável figura pública. Sá Fernandes e Ruben de Carvalho acreditaram que Zé Maria poderia encarnar o protótipo do bom selvagem na política portuguesa. E então o PS deixou-se de brincadeiras, e num momento de clareza wagneriana escolheu o Dr. Carrilho para candidato. Perdeu a coligação de esquerda, perdeu Rousseau, ganharam os humoristas deste cândido país. E o Professor Carmona foi eleito.

O impoluto Professor Carmona – possuidor de uma carreira política digna do posto de papagaio executivo no ombro do seu pirata – lá acedeu à vaga de fundo que o pretendia eleger. Mas a eleição tinha um preço: cuspir na mão que antes o alimentara – neste caso, abocanhar o ombro que antes o albergara. No entanto o desafio era irrecusável; ser candidato único ao maior município do país, com o único galináceo ao seu nível desterrado em Barrancos. O professor avançou; o PS colocou o Dr. Fontão (anterior braço direito de Jô Soares) como número dois da lista do PSD; a Mizé assentiu e o mundo pulou e rebolou de alegria. E o Senhor M. Mendes tornou-se para sempre o guardião da moralidade política.

Entretanto, chegaram a Lisboa da província uns senhores com dinheiro para esbanjar. Fez-se o negócio do Parque Mayer; o Dr. Mexia – outro excelente exemplar dessa espécie avícola que fala – vendeu um prédio na Infante Santo enquanto depósito industrial. E logo a autarquia o tornou em zona residencial. Entre licenciamentos na linha do TGV, tentativas de corrupção dos senhores de Braga, buscas nos domicílios dos vereadores, trapalhadas na EPUL, e a demissão da vereadora que formava a maioria, a oposição camarária fez o que se esperava dela: demitiu-se.

É verdade, o Dr. Carrilho não se lembrou de nada melhor para fazer se não, diante de tal sucessão de escândalos, ir para casa fazer uma reciclagem no seu Schopenhauer. Ficaram a perder os humoristas deste país, ficou a perder Schopenhauer no seu túmulo, e ganhou a restante humanidade.

O que restou portanto? Resta a maior autarquia do país sob suspeitas de corrupção e gestão danosa, com vereadores acusados pela PJ e com mandatos suspensos, outros aí na calha, uma autarquia sem maioria, e sem oposição – aliás, os dez mil votos do Dr. Sá Fernandes se fossem acções seriam uma Golden Share. E resta o impoluto Professor Carmona arranjando as penas lustrosas com um bico assaz gasto. Ah, e o guardião da moral pública, o Sr. M. Mendes, a escrever éditos sobre como dizer que sim e que não em simultâneo sobre assuntos em que o seu partido não tenha posição oficial. Ou sequer posição para decidir seja o que for.

Wednesday, January 24, 2007

Holocausto Sazonal


Janeiro nas suas pinceladas agridoces. Janeiro transparente esvaziando-se, esgazeando-se. Há poucas folhas sobreviventes no holocausto sazonal dos plátanos e ulmeiros. Os jacarandás prosseguem a sua introspecção tranquila – os galhos despenteados assemelham-se a eléctrodos desactivados e as copas estalam segredos assinados com canivete.

Em Janeiro, as luzes e os enfeites de Natal são guardados. As montras das lojas são desmascaradas. O rebuliço luminoso extingue-se. Permanecem os placards luminosos na sua sonolência invernil. Nunca reparo neles no Verão.
As luzes dos carros, os olhares cerrados. Os sobretudos escuros. O erotismo de um cachecol encobrindo o pescoço suado.

Às vezes tenho um pouco de medo. Não sei bem que pele é descascada no cerzir da escrita. Quanto a mim, a escrita cessou. Resta o Abismo. Assim dizia o HH no PHOTOMATON.

Entendo essa liturgia em que a escrita não é acto moral, adesivo individual da palavra solta. Torna-se um raspanço. A palavra é agoniante. Mas a escrita quando cessa é como o osso lavrado por medo, as cartilagens podadas pela caneta sublime. Nesse acto desfaz-se toda a moralidade porque é de dentro das trevas que emerge o léxico.

Por vezes sento-me solenemente para compor e escrevinho adendas a um corpo inexistente que vai tomando forma no mistério do cadafalso. Depois apago tudo e tento não pensar mais nisso.

Ouvir Nyman tem ajudado estupendamente a esse processo. Os concertos para piano são um Debussy écartés de la malaise de 14. Existem neles uma esperança barroca ausente do Claude-Achille. Ouvir a cathédral engloutie repetitivamente é provavelmente a experiência mais agoniante que se possa imaginar. Tal como na escrita, está-se diante de uma música que surge das sarjetas entupidas – vem de dentro e coloca-nos ainda mais dentro.

A existência, em toda a sua imagética irreplicável tende para uma desordem que só se presume ordenada porque se assume um sentido. Começa-se pelo fim, e atribui-se um sentido adequado ao acontecimento passado.

Entre essa ilusão comiseradora e a realização da falta de controlo sobre o destino da nossa próxima unidade temporal, restam alguns, escassos momentos, onde a criação se apropria adequadamente das mãos estéreis, e finalmente o sentido precede o acontecimento.

E aí o osso é descascado.

Wednesday, January 17, 2007

Influence without generating values

The exponential growth in the numbers of empiricists helps resolve another debate as old as that of the Greeks. Platonists are sympathetic to rule by experts and elites. Aristotelians are more receptive to democratic rule. Expertise in the form of empiricism straddles these two political poles. It is a more democratic expertise in that it is replicable, transparent, and sharable. Moreover, it is disciplined by the information inputs of blogs and information markets. Thus, expert judgments will no longer be those of the few wise persons who rely on authority to impress their conclusions on society. Instead, they will reflect the collective sentiments of the empirical community.
This kind of work demonstrates how empiricism can have influence without generating its own values. The values being assumed here are those implicit in the operations of the academic community itself.
Two other factors — themselves a product of our ongoing technological revolutions — will amplify the power of empiricism. One is the rise of blogs. Blogs help police and expose false studies with which interest groups and partisans may attempt to counter the empirical work that undermines the factual bases of their positions. Academic experts regularly write for blogs and, unlike reporters, are well suited to subject empirical work to searching scrutiny. Recently, for instance, a group of prominent legal scholars has begun a blog wholly devoted to law and empiricism. Such developments will also force empiricists to be more careful and transparent about the discretionary decisions they make, such as their choices of time periods to include in their investigations, because their colleagues will be able to call them to account for misjudgement or bias more easily.
The declining cost of empiricism also promises to transform our universities, because it provides greater incentives to hire empirical investigators in the social sciences. A hundred years ago, armchair speculation was very cheap compared to empiricism, as the cost of the latter enterprise was high, often prohibitively so, in that the available technology rarely delivered any useful results. Thus, it was rational for universities to hire theorists without much interest in comprehensive and statistical inquiry into the social world. But now that the cost of empiricism has fallen, a cascade of empiricists of all kinds — economists, psychologists, political scientists — is flowing into our universities and think tanks.

This inflow has several immediate effects, all of them beneficial to a free inquiry that will in turn aid the gathering of facts conducive to consensus politics. First, the hiring of empiricists will tend to decrease any ideological discrimination in academia, because empiricists, whatever their personal politics, will tend to be much more open-minded than their theoretically inclined colleagues. They respect facts themselves and professionally must give a hearing to other empiricists, whatever their views and whatever the results of their empirical investigations. They will also be less prone to discriminate, even in hiring theorists in their social science departments, because empiricists are likely to regard almost all theories as contestable.
Far more important to the future of America is the battle over substantive issues. Empiricism has already created a consensus in some areas, crime being one of the foremost among them. In the 1960s and 70s, the political community was much divided about the basic approach to crime. Some experts then attacked prison sentences as destructive rather than useful and even contended that certain criminal acts, like writing graffiti, should not be considered crimes at all.

But criminologists have turned to empiricism to show the truth of claims previously contested. It turns out that that prison sentences sharply reduce crime, as does the greater presence of police on the streets. Steve Levitt recognized that prison-overcrowding litigation created a natural experiment for testing the extent to which prison sentences reduced crime because the litigation released prisoners for reasons that had nothing to do with crime rates. By looking at the consequences of the prison litigation, he was able to show that for each criminal released from the prison population, the number of crimes will increase by about 15.

Monday, January 08, 2007

A Million Dollar Baby


A Million Dollar Baby é tanto um filme de boxe, como o Gone With the Wind é um filme sobre a guerra civil americana. Ou o Match Point, um filme sobre sorte. A Million Dollar Baby é um filme sobre esperança.

Espinosa definia a esperança com aquela objectividade decomposta em proposições tão peculiar. “A esperança nada mais é do que uma alegria inconstante que emerge da imagem de qualquer coisa, passada ou futura, sobre cujo o resultado temos algumas dúvidas.”

No filme, o confronto entre o elemento sem esperança – o treinador Franckie que foi abandonado pela família por uma razão desconhecida – e o elemento com esperança – a Maggy que sonha desde pequena em se tornar boxeur, e finalmente decide, aos 31 anos, executar esse sonho.

Ao longo da história, o Franckie absorve a força de Maggy, lida com os seus demónios, vai renascendo aos poucos. Basta uma pessoa ao nosso lado a lutar, que a luta já não parece assim tão difícil. O plural torna as coisas fáceis.

Maggy, pelo contrário, não tem de renascer; ela é a tal alegria inconstante, que se encontra a descobrir a tal imagem que idealizou, mas que nunca viveu – nem ao de longe. Ela nem sequer anseia pelo combate que vale a Million Dollars, porque o próprio processo de aguardar é suficiente para a preencher. Sim; quando se quer verdadeiramente algo, a própria tentativa quase se transforma num fim em si.

O maravilhoso Eddie Scrap junto os dois, porque é o único que viveu a ilusão, lutou por ela e falhou. Mas não perdeu a esperança no mundo à sua volta.

“… imagem de qualquer coisa, passada, ou futura, sobre cujo resultado temos algumas dúvidas.” Sempre achei estranho este preciosismo. Nunca pus em causa que o presente não entrasse na definição de esperança. Mas o passado quase que parece ali deslocado. Como é que o resultado de algo passado pode ser incerto? Já aconteceu. É definitivo.

Isso estaria correcto num mundo sem perdão nem arrependimento. A esperança que vem do passado é uma esperança de perdão. Franckie espera esse perdão. Anseia por ele. Toda a gente anseia por um perdão por algo estupidamente guardado nos confins do tempo. A esperança revela-se exactamente nesse acto de não aceitar que algo seja definitivo.

No fim, os papéis invertem-se. Maggy decide morrer, e é o treinador que a tenta convencer do contrário. Ela perde a esperança e isso é para ele insuportável. “ I can’t live like this boss. Not after I’ve seen all there is out there.”

Nada de resta para Maggy senão uma família insuportável que lhe quer tirar o dinheiro. Ela perde a esperança em viver, e perde a esperança em ter uma família decente. Não, na realidade ela passa a vê-los exactamente como eles são. Seres sem amor, egoístas, mesquinhos, desprezíveis. Presumo que esperança a mais contamine a visão das coisas adjacentes.

Million Dollar Baby é um filme sobre a esperança e a falta dela. E o que resta dela. No caso de Maggy, a definição de Espinosa falha só em assumir que ela tinha algumas dúvidas sobre o desfecho da sua jornada. Estou certo que ela sabia que não estava destinada a ser feliz; daí essa alegria insaciável em toda a porção de tempo que se aninhasse ao seu lado.

Friday, January 05, 2007

Algumas pérolas do Guns, Steel and Diamonds do Jared Diamond


É do conhecimento geral que a América do Sul foi colonizada pelos Espanhóis que criaram uma raça mestiça feita dos autóctones sobreviventes, dos escravos da costa Oeste Africana e mesmo algum sangue Europeu. Também se sabe que os Australianos originais eram os aborígenes, tendo sido colonizados pelos Britânicos.

O que não é evidente é que Madagáscar foi colonizada pelos indonésios Austroasiáticos por volta de 3000 AC. E que estes, por sua vez, já teriam sido colonizados pelos Asiáticos da costa Sul – colonizados por sua vez pela raça predominante chinesa do Norte. Sim, caso contrário, os indonésios seriam tão escuros quanto os autóctones da Nova Guiné.

Isto é tão surpreendente quanto Colombo chegar a Cuba a bordo da Santa Maria e aí encontrar uma colónia de suecos, como feições louras e uma língua de origem eslava. Sem vestígios de nenhum Índio.

As horas


A mesma estrada, percorrida à mesma hora divina; o mesmo sítio escondido no fundo dos vasos sanguíneos. Os locais perdurando como grandes blocos de aço esterilizado, imensas escarpas de sonhos vertidos.

Sim, os sítios e as horas, acotovelando-se na memória.

A mesma expressão inquieta; nada mudou em ti apesar do tempo. Continuas com as mãos apagadas sobre o xaile escuro; aguardas o cochichar dos cigarros mal apagados.

Aguarda e sente. Olha bem e vê a metafísica que não é. As migalhas são levadas e fica o vazio.

Les miètes s’endorment sur le vide. J’ais plus de foi ao poison.

O amanhecer sacode os membros; as mãos são eróticas na asfixia.

Este caminho que já fiz contigo num tempo em que os lábios ainda estremeciam. O caminho pela noite fria, a noite com o bolor das nuvens desprendendo-se; um dia deixei-te entrar e fiquei à tua porta até amanhecer.

Fiquei encostada à porta, com o silêncio derramando-se pelas frinchas. O frio lembra-me desse silêncio.

Acontece-me pensar no amor escrito em letras minúsculas, o amor deixado ao acaso num banco de jardim; ele ali está, como matéria casual de vozes roucas. E então sinto a rouquidão perfurando a atmosfera como um relâmpago.

A lama das palavras salpicando os corpos; sim, os sítios e as horas, esperneando uma coreografia imaterial.

Esse caminho, qualquer outro, o vazio, o vazio e as suas migalhas, é tudo um nada sufocante congregando os hálitos mornos das crianças a dormir. E assim sinto-me a boiar sobre o real.

Nunca consegui boiar no mar mas nadava debaixo de água com os olhos abertos.

As horas; o aconchego circular do ponteiro erecto. Os dias ficavam meigos quando sentia a tua clavícula entre os meus dedos. E o amor era um lastro, mesmo escrito devagar.

Diz-me devagar as coisas que anoitecem, ou diz-me silêncio desmembrado em copos cheios de gelo, ou não me digas nada. Dá-me um nada em letras minúsculas.

As horas; como se boiasse nos seus ponteiros adimensionais e sentisse a fundura da repetição. O mesmo caminho, repetindo-se, sem por isso ser diferente ou melhor.

Monday, December 25, 2006

Uma questão de escala

A dúvida. Esse elemento em forma de coisa que é perceptível na forma de uma sombra. A dúvida, tal como o desejo e os organismos dos aquários, tem geração espontânea. É uma lenha que arde invisível mas que deixa cinza. E a cinza cola-se aos dedos como melaço. É desagradável.

A dúvida é um exemplo claro de uma consequência descontínua de um processo contínuo. A soma parcelar das experiências esgota-se num enésimo termo qualquer, e o processo cessa. Na realidade é tremendamente curioso; é como encher um balde com água até um dado limite, até que essa água – liquido inerte por natureza – instabiliza e se transforma, por exemplo, em café. Ou num esquilo. Ou numa máquina de cortar fiambre.

No entanto, o princípio subjacente a esse evento extraordinário é na realidade banal. É um princípio simples que diz que o nível de desorganização do universo apenas tende a aumentar. E a essa matéria que não o é chama-se entropia. No fundo exprime a realidade aleatória da matéria e a magnificência do caos.

A ideia que pequenas alterações podem gerar mudanças incalculáveis é bastante intuitiva. Basta pensar em qualquer acontecimento e tentar encontrar as causas; depressa se é obrigado a assumir que existem acontecimentos que não têm nenhuma causa próxima detectável, pelo que existem, para cada acontecimento, consequências também indetectáveis. Mesmo sendo verdade que existam coisas sem qualquer aleatoriadade aparente, tal não significa que as suas causas sejam detectáveis.

Funções continuas, cumulativas que originam um magna de confusão e de catástrofe. A ideia é inquietante. Mas obviamente que só não se aplica às catástrofes que já se previam que fossem acontecer. E essas são na forma de uma lânguida superfície oval designada por zero.

A dúvida poderia inquietar ainda mais o sistema se, ela por ela, fosse absoluta, e condenasse à improbabilidade a análise de qualquer sistema de variáveis aleatórias. Mas essa proposição, em si, também não seria válida. Para mais, prever que não se pode prever é uma afirmação muito auto negatória.

Para mim, entendo bem que não existam dúvidas. Aceito que os sistemas instabilizam, que a água se possa transformar num esquilo, que os aviões caiam, ou que as pessoas se apaixonem. É natural que o acumular de coisas que se pensam e se sentem torne o sistema humano em matéria volátil de actos imprevisíveis. A desorganização não é natural; mas a instabilização é – chamá-la desorganizada é uma interpretação nossa.
Ás vezes, coisas que se sentiam como rochas inamovíveis começam a perder a forma, a perspectiva e até a substância. A certeza esvanece-se. Não se vê uma pedra, mas um sapo a fumar cachimbo. É natural que assim seja. A certeza é um tremendo descanso mental; com tantos elementos incontroláveis é um conforto indispensável reduzir ao máximo os graus de liberdade.

Sim, entre perturbações do sistema, entre transições de estado, existe uma inércia muito humana. A inércia que aconchega um mundo arrumado. Essa inércia é a dúvida per si. Mas curiosamente a dúvida é sempre uma questão de escala. Com o tempo ela dilui-se, mesmo que não surjam dados novos. O que é natural – porque ela não existe.
A dúvida é o acto de não-aceitação de uma nova realidade. A dúvida é interior e não matéria palpável que se organize exteriormente. A dúvida somos nós. Ou que, infelizmente, nos equipara a organismos que habitam aquários. Ou planetas.

Friday, December 08, 2006

Vegetação

A noite por cá é percorrida por uma sumptuosa gritaria de aves entre a floresta virgem. Tens estado uma lua cheia que ilumina uma noite nunca silenciosa; a floresta ondula sob o planalto do luar e a noite densa de arrepios emerge. E depois surge um silêncio fátuo que adormece em sossego.

Quase que sinto as bolhas de ar do tempo a dissolverem-se como um alka-setzer; mais parece uma sinfonia de grilos indispostos.

Á frente da praia há uma montanha mascarada de nuvens que apenas deixam percepcionar a base e o topo. O cume parece o de um vulcão imponente, um ancião adormecido na sua colcha de fosfato. Mas são montanhas mortas estas; cumes desgastados pela crepitação do tempo. O tempo dissolvendo-se como um alka-setzer.

A areia é falsa. Não é de cá. Montanhas com floresta virgem e areia junto ao oceano é um acaso geológico. As árvores não crescem em rocha, e a areia não vem da terra. Acho que prefiro a Cordoama.

Não que aprecie a aridez, mas esta incandescência de vegetação, verde a crescer do mais infímo micro-poro de terra ou de rocha, esta abundância de vida... Confesso que me é um pouco aflitiva por alguma intíma razão que desconheço.

Monday, November 27, 2006

Composição de homem mais tocha

Ele ali estava; suor fétido nas formas, o rancor nos lábios. De novo. Lembro-me de ser criança e ter encontrado um homem deitado na calçada, o corpo achatado sobre os jornais húmidos e um coto soberbo bem erguido como uma tocha.

Nunca tinha visto um amputado; o meu olhar ficou gazeado sobre o membro ausente, o espaço de um braço que não existia. O meu passo estacou e fui puxado com força por alguém que me levava pela mão.

Passei horas e dias com a visão do vagabundo amputado na minha cabeça. O cheiro. O cheiro acompanhou-me meses. Aquele cheiro a sujidade húmida. A cara com uma barba manchada de amarelo-torrado e o olhar destruído sobre as pessoas. Essa cara nunca a esqueci.

Acho que na minha cabeça tinha a ilusão que os membros voltavam a crescer. Ou que se compravam membros novos. Ou que se morria. Sim; devia achar que sem um membro qualquer era morte certa.
Encontrei-o de novo no outro dia. No meio da calçada, aninhado para o lado da estrada, com o mesmo olhar diluído, o coto pendurado sobre as costelas salientes. Abrandei o passo e os nossos olhares confluíram. Sobre mim, aquele olhar impiedoso; um olhar vazio de vida.

Havia este homem que dormitava sobre a calçada; e que não interpelava ninguém, não pedia nada. Não esperava nada. De repente, aquele olhar não parecia tão ameaçador. Parecia um olhar de criança. Um olhar parado sobre um pequeno espaço; talvez sobre um pedaço de infância com sabor a algodão doce e a correrias pela rua.

O homem sem roupas decentes, sem sapatos, e sem um braço. Um olhar feito de não desejo, de não vida. Um olhar sem esperança. Nunca tinha visto um olhar sem esperança alguma.

Ao olhá-lo altivamente pelos meus óculos escuros e percebi sem qualquer desvio de certeza; habitar a vida sem esperança é a pior enfermidade que alguém pode padecer.

Thursday, November 09, 2006

Algumas considerações prácticas sobre o sorrir

O que parece é.

Os pés bem no fundo da areia


Conheci-o por mero acaso. Por interposta pessoa. Aqui há algum tempo. Já na altura as formas débeis saltavam à vista. A magreza do corpo, a lividez dos gestos, a estreiteza das palavras. As olheiras sufocando o olhar radioso enquanto ouvia muito atento. Ele não acenava com a cabeça; cerrava os olhos como se tentasse ver melhor e emanava um pois qualquer. Pois. Era perturbante.
Aquele jeito de ser era como uma boca expectante para engolir silêncio. Uma boca de lábios rochosos. Não gostei dele ao princípio; metia-me medo.


Depois houve um dia que me pegou na mão com quem segura um beijo e disse me com a voz molhada, acho que nunca conheci um acto de beleza tão único como tu. Disse-me assim como se pede um copo de água ou se pede licença. Acto de beleza. Bem, decididamente sabes arrebatar uma rapariga, e ele riu-se com aquele jeito amargurado.

Acho que no fundo já tinha percebido; é suposto uma mulher perceber estas coisas. A forma como ele olhava, ou então como olhava em redor. A forma como olhava, sem nunca parecer procurar; como se entre nós houvesse uma cortina impressionista que deformasse os corpos. Era perturbante.

Durante algum tempo ele apeteceu-me como apetece sentir os pés enterrarem-se na areia molhada e continuar ali, os pés cada vez mais fundos na terra do mar, cada vez mais juntos, o corpo como uma haste de uma flor descarnada. Ficar ali diante de uma imensidão que não se pode tocar mas que se sente. E fiquei; arremessada sobre o meu acto de beleza. Único.

Acho que sabia que não podia ser só a metade. Porque o que sentia era apenas uma metade. Uma metade sôfrega de se destruir aos pedaços. Pensei que aquela estreiteza na voz e magreza no corpo viessem de fora; e estava apaixonada pelo acto que era acolhê-lo. Mas não vinha. Perguntava-lhe, mas não estás feliz, e ele fechava os olhos com força e ria-se. Como se o feliz se esgotasse em te ter. E eu fechava os olhos e deixava as palavras amarrotarem-se no escuro. Ele achava que eu era dele.

Acho que até achava atraente essa ideia da posse e do sofrimento per si. Um sofrimento só de se ser. Em nome do resto do mundo. Em meu nome. Acho que invejava isso. Não sentia a figura marchando pelo mato, mas ouvia o crepitar da caruma; não sentia as sombras adormecidas nos pinhais, mas via as folhas a remexerem-se no escuro.

Depois houve um dia em que deixei de suportar as costelas aguçadas e o olhar poeirento. Ele estava adormecido no meu colo como gostava de fazer e eu só sentia agulhas a riscarem-me o corpo. Tinha os pés frios, e adormecidos debaixo de terra. Tinha de partir porque o oceano estava gelado.

Mais tarde acho que percebi. Acho que ele simplesmente se tinha apaixonado pela própria ideia que tinha de si; e essa gravidade quase que me engoliu aos pedaços. Encontrei-o no outro dia; estava mais gordo. Tinha um ar tranquilo. Lembrei-me do que dizia a minha mãe, tens de o agarrar pela barriga, os homens agarram-se pela barriga.

Jantar na mesa e roupa lavada. Não há metafísica que o valha. Talvez tenha razão.

Wednesday, November 08, 2006

Alguns considerações práticas sobre a preocupação


Só deve ser objecto de preocupação a matéria que, directa ou indirectamente, seja passível de alteração significativa por parte do sujeito.

Caso não seja, não é preocupação: é comiseração.

Friday, October 20, 2006

Eternidade ao amanhecer




Não tínhamos culpa porque o dia se abria diante nós como uma goela súbita
E todos os pedaços de terra levitavam
A argila das sombras envolvendo as planícies de corpos
E todos os pedaços de mar explodiam
A espuma urdindo poros sobre as falésias despidas
E todos os pedaços fogo irrompiam
As chamas doces fulminando céus e galáxias gélidas
E todos os pedaços de amor se soltavam
Porque não tínhamos de culpa de sermos assim culpados
Assim sem dia ou noite, ou tempo algum,
Engolidos nesse embaraço breve de sermos eternos
Em cada amanhecer.